10 junho, 2012

ESTE PAÍS NÃO É PARA PORTUGUESES

Gérard Castello-Lopes

Hoje, durante uma longa caminhada matinal, passei por uma avenida iluminada pela beleza quase irreal de um conjunto de jacarandás. De repente, dou por mim banhado por essa luz violácea, ao mesmo tempo fulminante e apaziguadora, de cima, irradiada pelas copas altivas, de baixo, irradiada pelo chão cravejado de folhas caídas. E é precisamente sobre este tapete quase irreal que vou dar com um maço de Marlboro, amachucado. Amachucado mas ao mesmo sobranceiro no seu repugnante domínio sobre as castas folhas violáceas. Uma infecta excrescência, uma excruciante mácula num manto de pureza cromática.
Como o eterno retorno para Nietzsche lá no seu passeio pela montanha, esta visão teve para mim o efeito de uma revelação: isto é Portugal. Este maço de Marlboro embrulhado com folhas de jacarandá por cima e por baixo, é Portugal. Um país bonito, com clima agradável, mar, planícies, montanhas e florestas, com tudo para dar certo. Mas também o país onde vivem os portugueses. Este país não é para portugueses.