13 junho, 2012

EROSTATO

                                                                Leonard Freed, Copenhaga, 1971

Qualquer pessoa normal do século XXI ficará algures entre o perplexo e o indignado perante a visão do sexo revelada por Tolstoi em A Sonata de Kreutzer, pela boca de Pózdnichev, personagem que, durante uma viagem de comboio, irá dizer tudo o que pensa sobre o casamento, o amor, as relações entre homens e mulheres. Para o escritor russo, o desejo sexual é um obstáculo à felicidade, um factor de perturbação nas relações humanas, levando o tumulto e a tempestade onde deveria haver paz e tranquilidade. A paixão e o amor não  são mais do que uma sublimação de desejos primários que escravizam o ser humano, reduzindo-este a uma espécie de prostituição legalizada, a mero objecto espremido pelo ávido desejo do sexo oposto. A castidade e indiferença perante o sexo serão, por isso, a melhor terapia para este mal-estar e turbulência, permitindo aos seres humanos concentrar-se em actividades moral e espiritualmente superiores, elevando deste modo a sua condição, tanto no plano individual como no plano colectivo.
Não vejo necessidade de contestar esta posição. Não por concordar com ela mas porque, sendo tão radical e desfasada do que são os nossos padrões de uma normalidade consensualmente aceite (há padrões de normalidade que não são consensualmente aceites), seria um trabalho inútil.
Mas não deixa de ser um interessante exercício pensar como seriam as relações entre os sexos, como seria o amor, como seria o namoro ou o casamento, se o desejo sexual estivesse exclusivamente programado para ciclos reprodutivos, se o ser humano vivesse assexuadamente, à excepção de períodos determinados para a reprodução da sua espécie. Muito provavelmente não seria apenas o amor, o namoro ou o casamento que seria radicalmente diferente. Muito provavelmente toda a psicologia humana seria diferente: os interesses, as motivações, os vícios (tanto ligeiros como graves), as relações de poder, a saúde mental, os padrões de felicidade e de bem-estar. Muito provavelmente a própria organização social seria diferente. Muito provavelmente, a história da literatura, da pintura ou do cinema teriam sido diferentes. Muito provavelmente, não existiriam religiões tal como as conhecemos. Todos estes "muito provavelmente" não passam, obviamente, de um artifício retórico.