21 junho, 2012

A CIDADE E O DESERTO

                                                                         Paulo Nozolino

Nada melhor que uma cidade para casais que precisem de distracção. Quem diz uma cidade diz o mundo lá fora, embora quanto maior for a cidade, maior seja a distracção. Graças às suas brilhantes lantejoulas e movimentos, a cidade embala-nos tanto para fora de nós próprios como para fora dos outros, até adormecermos. A distracção pode ser tão carnuda como uma luzidia e sumarenta maçã vermelha. Mas a distracção adia, disfarça, ou mesmo oculta, a verdadeira natureza e identidade das pessoas. Ou por ser demasiado cedo para situações que obriguem os verdadeiros rostos a revelarem-se por detrás das alegres máscaras do entusiasmado  enamoramento, ou, então, já demasiado tarde para iludir as máscaras puídas sobre os rostos. Não por acaso diz Tolstoi que "a cidade é melhor para as pessoas infelizes" [A Sonata de Kreutzer]
É por isso que eu acredito que o melhor sítio para duas pessoas verdadeiramente se conhecerem não é a cidade mas o seu oposto: o deserto. "Desce-se à cidade mas sobe-se ao deserto" diz Régis Debray [Deus-Um Itinerário]. A cidade é fácil, o  deserto é difícil. No deserto não há distracção mas uma absoluta concentração e ensimesmamento. Daí um tipo chamado Jesus ter precisado da solidão do deserto, do infinito do deserto, do vazio e silêncio do deserto, para se poder tornar Cristo. Lembro-me de ter lido uma reportagem, durante uma das guerras do Iraque, sobre o modo como jovens americanos se adaptavam à vida no deserto. Um deles, interrogado sobre se seria capaz de lá viver, respondeu: “O deserto é o máximo. Mas não. Sem álcool e sem gajas, nem pensar”. Disse-o, se calhar, ainda animado com o último baile de finalistas lá do liceu, após o qual acabou a noite, como nos filmes, a namorar no interior do automóvel, tendo como horizonte as feéricas luzes de L.A.
Claro que é muito bom viver rodeado de cinemas, teatros, exposições, sessões culturais, livrarias, cafés, restaurantes, lojas, centros comerciais, ruas bonitas para passear e, como música de fundo para animar os ouvidos, muitos carros a fazerem barulho. Tudo isso faz parte da vida e a enriquece, embora um pouco menos os carros a fazerem barulho. E também é verdade que o facto de a cidade ser melhor para as pessoas infelizes não significa que não seja também melhor para as pessoas felizes. A cidade, enquanto espaço genuinamente humano, é intrinsecamente boa, e é para a cidade que nós somos feitos e para nela procurarmos a felicidade sobre a qual tanto reflectiu Aristóteles.
Mas há uma ausência de pedagogia no modo como a cidade prepara as pessoas para se conhecerem. Por isso, se duas pessoas se quiserem verdadeiramente conhecer para se amarem, devem, como os antigos monges do deserto, fugir da cidade. Não para o deserto, claro, que a vida não está para isso. Mas qualquer do género, por exemplo, dentro de casa, entre quatro paredes. Da casa como espaço fechado ao mundo e onde nada há para fazer e para ver. É fechadas dentro de uma casa, as 24 horas que um dia tem e durante o maior número possível de dias, que duas pessoas, sem nada para fazer e ver a não ser elas próprias, terão a melhor introdução à natureza e identidade de cada uma delas. E quanto mais tempo resistirem, tanto a si próprias como ao outro que a olha enquanto é também olhado, maior será a subida. Depois de vencido o deserto, que se desça então finalmente à cidade.