06 junho, 2012

AS SAPATILHAS

                                                                     Edouard Boubat [1972]

Tenho o hábito de fazer umas caminhadas ao fim da tarde para as quais calço umas sapatilhas. Umas sapatilhas baratas mas suficientemente confortáveis para me sentir bem enquanto caminho. Eu sei que há sapatilhas caras, sapatilhas caríssimas e sapatilhas estupidamente caras. Mas também sei que não preciso de nenhuma delas e que seria um enorme disparate estar a investir demasiado dinheiro numas sapatilhas que não me fazem falta para as minhas pacatas caminhadas. Mas percebo que um atleta profissional o faça para poder atingir os seus objectivos em provas nas quais existe uma elevada exigência competitiva. E que seria um disparate fazê-lo com as sapatilhas que eu calço para as minhas caminhadas. Em suma, faz todo o sentido existirem sapatilhas baratas e sapatilhas caras, diferentes sapatilhas para diferentes necessidades e diferentes objectivos.
Parto deste exemplo para pensar na questão da riqueza e dos bens materiais. Tanto num sentido psicológico como num sentido moral. E perguntar: faz sentido enriquecer? Ter dinheiro e bens materiais será assim tão importante? Vale a pena viver em função do dinheiro e dos bens materiais? Serão o dinheiro e a felicidade que trazem felicidade às pessoas?
Se lermos tanto o Antigo como o Novo Testamento, a resposta é claramente negativa. E o mesmo se passa com quase todos os sistemas filosóficos. Aliás, ainda hoje, e em clara contradição com a prática das pessoas, existe um discurso fortemente moralista relativamente ao dinheiro e aos bens materiais. Trata-se de uma contradição que não ajuda a encontrar uma resposta correcta para o problema. Moralmente, queremos acreditar que o dinheiro e os bens materiais não trazem felicidade. Mas, depois, o que todos queremos é ganhar muito dinheiro para vivermos uma vida que não pode ser vivida sem esse dinheiro.
É aqui que surgem as sapatilhas. As pessoas não são todas iguais, certo? Há pessoas que precisam muito de muito trabalhar, não só porque gostam muito de trabalhar mas porque são ambiciosas e querem ganhar dinheiro para terem bons carros, boas roupas, comerem em bons restaurantes e fazerem muitas viagens. Ora, quem sou eu para dizer que não é isso que lhes dá felicidade? Que direito tenho eu de dizer a uma pessoa que não é feliz só porque conduz um bom carro e viaja bastante quando aquilo de que mais gosta na vida são bons carros e viajar? Que direito tenho eu de dizer a uma pessoa que não deve ser vaidosa e ambiciosa, e que nem deve procurar bens que alimentem essa vaidade e ambição, quando sei que a vaidade e a ambição são um traço estrutural da sua personalidade? E serão a vaidade e a ambição imorais ou moralmente indiferentes? 
Não vejo qualquer problema em enriquecer se for esse o grande objectivo da pessoa. Eu não preciso de comer em restaurantes de luxo mas não vejo qualquer problema em haver pessoas que precisem disso e que por isso precisem de ganhar dinheiro para pagar os seus almoços e jantares de luxo. O problema, creio, surge quando uma pessoa persegue objectivos que não estão de acordo com as suas necessidades. Repito, há pessoas que precisam de muito dinheiro para serem felizes. Acredito, porém, que grande parte das pessoas não precisa de muito dinheiro para ser feliz. O problema é quando essas pessoas passam a acreditar que precisam dele para serem felizes, vivendo depois tristes e frustradas porque não o têm. Ou seja, a maior das pessoas é infeliz por razões subjectivas e não objectivas. É infeliz porque quer acreditar que só não o será se possuir uma dada quantidade de dinheiro e certos bens materiais. 
Mas será que possuir esse dinheiro e bens materiais é assim tão importante? Para responder, devemos então estar atentos ao que nos ensina parte das religiões e da filosofia. Quer dizer, aprendermos a olhar para os nossos pés, para o caminho que temos pela frente e que tipo de caminhada queremos fazer. Depois, descobrir que tipo de sapatilhas precisamos. Pessoas há que nem de sapatilhas precisam. Andam descalças e são felizes. Não é o meu caso, admito. Eu cá gosto muito das minhas sapatilhas para as minhas caminhadas e não preciso de as trocar.