20 junho, 2012

ARTO PAASILINNA - UM APRAZÍVEL SUICÍDIO EM GRUPO

                                                                       Alfred Eisenstadt                           

Eu tenho uma teoria, embora não a aplique com rigor: por cada livro sério que lemos devemos ler outro que que nos faça rir.
Poderia invocar um argumento psiquiátrico: o riso é catártico, emocionalmente libertador e apresenta gratificantes efeitos neuroquímicos e psicossomáticos quase tão elevados como aqueles induzidos pela boa comida,  o bom sexo ou a leitura dos livros de Cioran ao pequeno-almoço. Em suma, rir faz melhor à saúde do que, por exemplo, ouvir ou olhar para o primeiro-ministro, sobretudo naqueles momentos igualmente hilariantes em que pretende motivar os portugueses. Por isso, melhor do que  ouvir ou olhar para o primeiro-ministro será sempre mais eficaz ouvir ou olhar para o ministro da Economia. Só que o ministro da Economia não é, infelizmente, um livro, e se não é um livro também não pode ser um livro que nos faça rir, de modo que o melhor será mesmo passar por uma livraria em vez de passar pela farmácia para comprar anti-depressivos e ansiolíticos.
Mas, sendo eu rapaz sereno e pouco dado a crises existenciais e sturms und drangs de andar por casa, não é o argumento psiquiátrico que me move. Sigo um argumento, digamos, mais filosófico: o elevado e inestimável valor epistemológico e intelectual do riso. Contrariamente ao que dizia Jorge de Burgos, não creio que rir nos faça baixar à condição de símios, embora também seja verdade que algumas pessoas a rir me façam lembrar quando ia ao jardim zoológico e via símios aos pinotes e a rirem desalmadamente enquanto comiam amendoins e se masturbavam (não necessariamente por esta ordem), fazendo-me lembrar as sábias palavras do poeta que dizia que nada mais lhe dava vontade de chorar do que ver um português a rir.
Concordo com a posição de Bergson, segundo a qual "não existe cómico fora do que é propriamente humano", e para quem "uma sociedade de puras inteligências talvez já não chorasse, mas rir provavelmente ainda riria" [O Riso]. Por isso já lá vai o tempo em que os antigos gregos e romanos pensavam que as tragédias de Ésquilo, Sófocles e Eurípides seriam para um público, enquanto as comédias de Aristófanes, Plauto ou Terêncio seriam para outro.
Rir pode ser um acto de subtil inteligência, desconstruindo ou desmistificando uma percepção mais convencional e convergente das coisas.É por isso que os ditadores nunca se deram bem com o riso. Mas não só os ditadores. Também aquelas pessoas que, não sendo ditadoras, adoram levar a vida a sério, como  os comentadores desportivos, economistas ou mulheres que estão duas semanas sem irem à cabeleireira, como se a vida fosse uma coisa intrinsecamente séria e nós, humanos, fôssemos a coisa mais séria ao cimo da terra. Graças ao riso podemos ver o lado cómico das coisas e sabe Deus o quanto o cómico é importante para percebermos também o seu lado verdadeiramente sério.
Para além de 70% das coisas que acontecem neste país, o que neste momento me anda a fazer rir é um livrinho chamado Um Aprazível Suicídio em Grupo, de um escritor finlandês chamado Arto Paasilinna [Relógio de Água]. Brincar com o suicídio não é coisa que esteja ao alcance de qualquer um. Mas o escritor, provando que a Finlândia consegue ser mais do que a Nokia e o sonho do engenheiro Sócrates em transformar Portugal numa Finlândia ibérica, consegue fazê-lo com a mesma naturalidade com que as pessoas lá na Finlândia gostam de se suicidar, uma espécie de desporto nacional como a sauna e o hóquei no gelo. Gostam tanto que, diz o escritor, a melancolia, que leva depois ao suicídio, consegue ser por lá um inimigo ainda mais impiedoso que a União Soviética. 
Ora, cenário tão mórbido, visto por um nativo, tem que ser forçosamente levado muito a sério. Pois tem, mas não leva. Em vez de levar a sério, leva a brincar, criando um cenário hilariante, no qual, brincando com o desejo de morrer, acaba ao mesmo tempo por enaltecer o desejo de viver. E nada como rir de quem quer morrer para percebermos que o melhor é mesmo estar vivo para poder rir e continuar a poder rir. E a rir a rir, lá vamos nós percebendo que vida só há uma e que não devemos desperdiçá-la. Se isto não é inteligência vou ali e já venho. Se eu estivesse agora para me suicidar pensaria duas vezes antes de o fazer. Alguém, porventura, gosta de ser gozado? Para isso já basta estarmos vivos e tudo o que é de mais parece mal.