04 junho, 2012

A ARTE DO ROMANCE

                                                                      Josef Koudelka

Acabei de ler um romance que me obrigou de imediato a considerá-lo um dos mais importantes que li até hoje: Bartleby, publicado por Herman Melville em 1853. Não irei dizer porquê. E não é por capricho. Não o digo, simplesmente porque ainda não sei bem explicar porquê, e ter a nítida consciência de que estou ainda longe da sua verdadeira dimensão e importância. Mas também é precisamente por não saber porquê que mais convencido fico dessa importância, acontecendo-me agora o que já me havia acontecido com a Antígona, o Quixote ou a Metamorfose, também ao acabar de os ler: a sensação de estar, como em certos filmes ou quadros no momento em que os largamos, perante um texto inesgotável, um texto que abre e reabre inúmeras portas pelas quais permanentemente entramos e dificilmente saímos. E a sensação de estar perante uma personagem que jamais nos irá largar e iremos eternamente chamar para, como símbolo ou metáfora, iluminar zonas da vida e da existência humana perante as quais a nossa compreensão ainda balbucia.
Trata-se, neste sentido, de um romance que não se limita a contar uma história, e uma história que provoca um estado de deleite e prazer estético em quem o lê, mas de um romance enquanto espécie de "laboratório filosófico" graças ao qual as ideias poderão ser manipuladas num plano imagético, sensível, concreto. Não por acaso, a Filosofia sempre revelou essa atracção pelo imagético e sensível, desde o Anel de Giges, na República de Platão, à máquina das experiências de Nozick, passando pelo Leviatã de Hobbes, o Senhor e o Escravo de Hegel ou o teatro de Sartre.
Tão célebre quanto Bartleby é a frase que encerra o romance: «Ah, Bartleby! Ah, humanidade!» E Bartleby, o escrivão que um dia é contrato por um advogado nova-iorquino para trabalhar no seu escritório, obriga-nos, de um modo desarmante e provocatório, a pensar não apenas no que será a humanidade mas também em questões de natureza moral, afectiva, social ou económica. E tenho a absoluta certeza de que, doravante, tal como o Quixote, Bartleby jamais me abandonará sempre que precisar de realizar certos exercícios para melhor entender a vida e o mundo com as inquietações e dúvidas que naturalmente lhes estão associadas. Para já é só isto que sei embora já não seja pouco. Se, entretanto, alguém, me pedir para  explicar e esclarecer um pouco melhor a importância do livro e da personagem, limitar-me-ei a responder, com o meu ar de sacana quando estou para aí virado, «I would prefer not to».