30 maio, 2012

SOU COMO UM RIO


Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem  alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo :  "Fui  eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.


No Ípsilon da passada sexta-feira, a pessoana Teresa Rita Lopes desanca no pessoano José Cavalcanti a respeito de sua biografia, com 710 páginas, de Fernando Pessoa. A sova é tremenda. Porque o biógrafo inventa, na vida do poeta, “amigos de rua” (bêbados, pedintes, loucos, arruaceiros), chegando mesmo a pensar em casar com a filha de uma lavadeira. Diz a pessoana que, contrariamente ao que insinua o pessoano, nunca ninguém viu Pessoa bêbado ou tresloucado. E nega que a mãe do poeta não era católica, que o pai não tenha tido contactos com o filho, que a tia-avó Maria Xavier fosse uma velha tonta, que a família de Tavira não foi importante na sua formação ideológica. E lembra que há mesmo erros quando fala das próprias biografias fictícias dos heterónimos, e como se isso não bastasse, ainda fala de heterónimos que nunca existiram, baseando-se em coisas tão irrisórias como os exercícios de grafologia de Fernando Pessoa nos quais escrevia nomes como Jerome Gaveston.
O que me fascina nesta discussão entre os dois pessoanos é a própria natureza pessoana da discussão sobre um homem cuja labiríntica alma se confunde com os seus heterónimos, um dos quais diz que se quiserem escrever a sua biografia há apenas duas datas a registar: a do seu nascimento e a da sua morte. E que, tirando isso, todos os dias são dele. 
Que significado tem, perante um homem que não sabe quantas almas tem, discutir a sua biografia? Eu, que não sou pessoano, não preciso de entrar na discussão nem de perder um minuto da minha vida a pensar se o escritor se embebedava ou não embebedava, se a mãe era ou não era católica, ou se teve ou não companhia na cama do hospital, antes de morrer. 
O que me traz aqui é a natureza heteronímica de qualquer ser humano, sobreposta aos elementos objectivos, positivos, empíricos da sua biografia, independentemente da maior ou menor coerência ou continuidade desses dados biográficos ao longo de um rio que flui sem parar e em cujas águas entramos e não entramos, em que somos e não somos (Heraclito).
Quem sou eu onde já fui mas já não sou, quem sou eu onde ainda não sou mas virei a ser? Continuarei a ser eu no que fui mas já não sou? Serei já eu no que serei mas ainda não sou? Não é preciso ser escritor ou poeta para questionar e problematizar a relação entre um ortónimo e vários heterónimos, assim como a natureza autêntica ou inautêntica de cada um deles. A biografia é o que fica para a posteridade, o que fica registado, por escrito ou oralmente, iluminada com a objectividade matemática de evidências construídas a posteriori, no momento em que a ave de Minerva se prepara para levantar voo. As almas, essas, que ninguém sabe muito bem quantas tem, esvair-se-ão nos dias que são apenas de cada um, apagando-se, silenciosamente, no preciso momento do silêncio final.
Viver, no fundo, é estilhaçar, fragmentar, dividir, dispersar. Montar biografias não passa de juntar estilhaços para depois os colar, criando a ilusão de que há apenas uma vida, apenas um eu, mergulhado num rio de correntes fortes, transformado magicamente num tranquilo lago de águas paradas.