03 maio, 2012

PSICOPATOLOGIA DA VIDA QUOTIDIANA


Hoje de manhã entro no elevador e, como sempre, carrego no botão antes da habitual espreitadela para o espelho meu, espelho meu, que vai confirmar o meu radiante ar de felicidade por mais um encontro com o admirável mundo velho do dia anterior, três andares abaixo da minha torre de marfim onde abandono os meus mortos, repousados em prateleiras que irradiam secular sapiência.
O elevador, todavia, impávido e sereno, recusa-se a descer. Insisto. Continua a recusar. Quando, finalmente, pondero ir pelas escadas percebo então que estava a carregar no botão do 3ºandar.
Os elevadores, tal como os seres humanos, podem falhar, o que até nem foi o caso, pois, desta vez, quem falhou fui eu. A grande diferença é que o acto falhado de um elevador consiste em não trabalhar. O acto falhado de um ser humano pode explicar-se precisamente por ir trabalhar.