10 maio, 2012

PEDAGOGIA ROMÂNTICA


«A força com que uma estrada no campo se nos impõe é muito diferente, consoante ela seja percorrida a pé ou sobrevoada de aeroplano. Do mesmo modo, também a força de um texto é diferente, conforme é lido ou copiado. Quem voa, vê apenas como a estrada atravessa a paisagem; para ele, ela desenrola-se segundo as mesmas leis que regem a topografia envolvente. Só quem percorre a estrada a pé sente o seu poder e o modo como ela, a cada curva, faz saltar do terreno plano (que para o aviador é apenas a extensão da planície) objectos distantes, miradouros, clareiras, perspectivas, como a voz do comandante que faz avançar soldados na frente de batalha. Do mesmo modo, só quando copiado o texto comanda a alma de quem dele se ocupa, enquanto o mero leitor nunca chega a conhecer as novas vistas do seu interior, que o texto - essa estrada que atravessa a floresta virgem, cada vez mais densa, da interioridade - vai abrindo: porque o leitor segue docilmente o movimento do seu eu nos livres espaços aéreos da fantasia, ao passo que o copista se deixa comandar por ele. A arte chinesa de copiar livros era garantia, incomparável, de uma cultura literária, e a cópia uma chave dos enigmas da China» Walter Benjamin, Imagens de Pensamento


Lembro-me de andar na escola primária e do prazer que sentia em fazer cópias. Não me lembro bem, a memória é traiçoeira, mas talvez se devesse ao facto de numa cópia não dar erros, estando por isso, no  que a reguadas dizia respeito, livre de perigo. Fosse qual fosse o sentido desse prazer, na verdade, ainda hoje gosto de copiar. Há tempos tive que fazer algumas leituras por causa de um trabalho que andava a fazer. Enquanto lia, umas vezes sublinhava, outras vezes escrevia uns tópicos e uns esquemas com umas setas. Mas uma coisa que fazia muito era copiar, literalmente, partes do texto que estava a ler. Por vezes, longas passagens mesmo. À mão, artesanalmente, com a minha letra horrível e desajeitada, e não através das pontas dos dedos num teclado.
E isso era uma coisa que me dava prazer. Um trabalho passivo e com uma absoluta falta de criatividade mas cuja lentidão mecânica dá a sensação de penetrar numa espécie de interior do texto como se fosse eu o autor daquelas palavras. O texto, tal como as pessoas, tem uma vida exterior e uma vida interior. É evidente que compreender um texto, lendo-o ou ouvindo-o, será sempre um modo de entrar nele e não apenas a percepção de simples sons e grafismos, como se de uma língua estrangeira que não dominamos se tratasse. Porém, escrever esse texto com a nossa mão, ainda que não seja o nosso texto, é ver o texto nascer a partir do nada, e inscrevendo-se lentamente nesse outro nada que é a folha em branco. Palavra a palavra, frase a frase, parágrafo a parágrafo. Copiar um texto, permite acompanhar de perto o próprio processo mental de quem o escreveu, pesar cada palavra, sentir o vagaroso movimento da frase, como se o pensamento do autor se transformasse no nosso próprio pensamento.
Há pedagogos modernos e cheios de ideias novas que cada vez mais pedem que as crianças sejam cada vez mais, e cada vez mais cedo, criativas, inteligentes e originais. Eu, se fosse dono de um colégio, obrigaria os alunos desde a escola primária até ao 12ºano a fazerem cópias e a decorarem textos. Decorar um texto significa conhecer o texto com o coração (cor). Copiar um texto, na mesma linha, significa conhecer o texto através da alma e não apenas através da inteligência.
Será uma verdadeira Graça para uma criança ou jovem ser levado a copiar ou decorar bons textos. Mesmo que os rapazes já tenham barba e as raparigas leite para dar. Copiar um bom texto é escrever um bom texto. Decorar um bom texto é dizer um bom texto. A inteligência e o gosto pelo belo não se desenvolvem, estimulando umas ideias avulsas e falsamente originais. Desenvolvem-se mimeticamente, mecanicamente, por repetição. O resto virá depois. Esta, sim, será a verdadeira pedagogia romântica. Aquela que reduz o aluno à sua insignificância e nulidade para depois se ir erguendo a pouco e pouco, com as mesmas palavras que, sendo de outros, passam a inscrever-se na sua folha de papel, mas também na sua pele e na sua alma.