29 maio, 2012

PEDAGOGIA DUM DUM

                                                        Federico Fellini | O Navio [fotograma]

Há dias, numa aula, perante garotos de 16 anos, falei na possibilidade de a história, à semelhança do que acontece na natureza, não ser um processo feito de simples acasos e acontecimentos que ocorrem aleatoriamente no espaço e no tempo, mas um processo marcado por leis, regularidades, padrões, previsibilidades, podendo assim a História adquirir o mesmo estatuto de ciências como a Física, a Química ou a Biologia.
Claro que para pensar sobre isto com o mínimo de competência é preciso, primeiro, saber muito de história, segundo, estar munido de uma estrutura conceptual sólida, construída ao longo de muitos anos. Pessoas há que dedicam o seu tempo a pensar sobre isto, lêem centenas de páginas sobre isto, escrevem livros sobre isto, fazem conferências sobre isto. Ainda assim, sobre isto, não há respostas claras e seguras.
Mal eu expliquei o problema à turma, de imediato vários dedos se levantaram, preparando-se as gargantas para emitir profundas opiniões. Convém lembrar que estou a falar de garotos com 16 anos que nada sabem de história nem do que seria imprescindível saber para pensar sobre um assunto, do qual, ainda para mais, ouviram falar pela primeira vez.
Trata-se, por isso, de um tremendo disparate. Ora, pedagogicamente, para evitar este tipo de disparates, dever-se-ia fazer exactamente o contrário do que é a prática habitual. Quase desde o berço que as criancinhas são convidadas e emitir opinião sobre tudo e mais alguma coisa, e as suas cabecinhas insufladas com doses maciças de auto-estima, sendo permanentemente estimuladas a lembrarem-se das suas magníficas inteligências, criatividade e originalidade. Se a este vírus juntarmos a liberdade de ter a opinião que bem se quer, o pesadelo torna-se inevitável.
Para evitar este tipo de desvarios, os estudantes, desde a escola primária até à universidade, deviam ser obrigados a estar de boca fechada. Um aluno não deve ir à escola para chilrear, balir, uivar ou zumbir mas apenas para ouvir. E quanto mais ouvir mais possibilidades terá de poder vir um dia a falar. Não falar por falar, tagarelice, ou aquilo a que os gregos chamavam doxa, mas a falar como é suposto falar um ser racional que sabe argumentar em vez de simplesmente emitir sons inconsequentes e ininteligíveis. A aula ideal é aquela em que um professor fala e os alunos estão calados a ouvir. Tirando a voz do professor que estudou e que sabe, durante uma aula apenas as moscas se devem ouvir. E os alunos não são moscas. Os alunos devem saber ouvir, as moscas, essas sim, sabem apenas zumbir.