14 maio, 2012

O SONO DA RAZÃO


Tem-se falado muito nas relações de poder entre os países. Sobretudo por causa da toda poderosa Alemanha e da correlação de forças entre a Alemanha e a França.
Ora, eu de política entendo muito pouco e de economia absolutamente nada. A bem dizer, haverá mesmo muito pouca coisa na vida que ouse entender. Mas há coisas nas quais gosto de pensar e que embora não tenham que ver directamente com política e economia, acabam sempre por lhes estar ligadas. Por exemplo, a história enquanto processo protagonizado por países numa relação de identidade e diferença consigo próprios e na relação entre si.
Vou directamente ao problema. O Portugal e a "Espanha" de 1385, nada têm que ver com o Portugal e a Espanha de 1640 que, por sua vez, nada têm que ver como o Portugal e a Espanha de 1960 que também já estão muito longe do Portugal e da Espanha de 2012. Os quadros sociais, políticos, económicos e ideológicos são de tal modo diferentes  que, comparar o Portugal de 1385 com o Portugal de 2012 é como comparar dois planetas diferentes. Eis, portanto, a história enquanto diferença.
Quando se diz que a II Guerra foi uma continuação da I Guerra, está-se a jogar com quadros políticos e económicos vividos, em muitos casos, pelos mesmos protagonistas, só que em diferentes papéis. É verdade. Mas se pensarmos na Alemanha dos anos 30, percebemos facilmente que, comparada com a França, Inglaterra ou EUA, tem muito pouco que ver com a Alemanha actual. A Alemanha é hoje uma democracia avançada, um país pacífico e onde qualquer tipo de fanatismo é tão sociologicamente residual como em países igualmente evoluídos e pacíficos como a Noruega, Dinamarca ou Holanda.
Até que ponto, quando olhamos para a história, não seremos mais sensíveis à diferença do que à identidade? Não veremos mais facilmente o que evolui do que aquilo que está inscrito no código genético de um país, não porque os países tenham códigos genéticos inatos mas porque os foram construindo ao longo do tempo?
Claro que somos sensíveis ao que não muda num país, sobretudo a língua e a memória colectiva que é partilhada por todos os seres humanos que falam essa língua num dado território. Mas eu quero ir mais longe. À ideia de que, tal como os seres humanos, também os países podem ter um lado diurno e outro nocturno. De dia, todos os países são europeus, ouvem ternamente o hino da Europa (por acaso composto por um alemão que era surdo), conhecem e respeitam a dimensão jurídica e política que gere a vida dos países. Mas o que é cada país quando dorme? Que tipo de pulsões se movimentam no seu inconsciente colectivo? Que tipo de culpa, mas também que tipo de redenção? E ambição? Que fantasmas são convocados para nos explicarem o que somos e o queremos ser, dos quais tantas vezes nos envergonhamos quando acordamos? Neste caso, já falo de identidade e não de diferença. No que não muda e é irredutível às mudanças alucinantes das coisas mais velhas do mundo que são os jornais do dia anterior e mais ainda os do mês anterior e mais ainda os do ano anterior e mais ainda os da década anterior.
A guerra é a continuação da política por outros meios? Não digo que não.  Mas, já agora, por que não dizer também que a política pode ser uma continuação da guerra por outros meios?