13 maio, 2012

A MÃO

                                                                          Brassaï

Em  1899 (embora na capa do livro estivesse impresso "1900"!) o dr Sigmund Freud publica, em Viena, capital do Império, A Interpretação dos Sonhos
Dois anos depois, em 1901, com 21 anos, a menina Alma, tendo ainda no BI o Schindler de seu pai, e não de Mahler, como terá ficado para a posteridade, está apaixonada por Alexandre von Zemlinsky, seu professor de música, homem fisicamente de fugir mas intelectualmente superior. É a sua segunda relação amorosa. O primeiro eleito terá sido Gustav Klimt, que perdeu a cabeça por ela mas a quem ela apenas terá permitido uns fugazes beijos. Não por acaso, pois Alma queria chegar virgem ao casamento.
Alma é uma rapariga de boas famílias que, para além de uma esmerada formação musical, lia Platão e Nietzsche, sabia grego, tendo traduzido os Padres da Igreja. Uma mulher ávida de saber e de cultura e que ao longo da vida escolheu maridos e amantes de modo a satisfazer tão superior desígnio. Alma não é uma rapariga qualquer e a sua Viena também não é uma cidade qualquer. A Viena de Freud mas também a Viena de Klimt, Kokoschka, Karl Kraus, Stefan Zweig, Musil, enfim, de Mahler. Uma Viena que, com os seus  aristocratíssimos salões literários que rivalizavam  com os de Paris, e com uma burguesia que procurava avidamente a cultura como forma de ascensão social, fazia com que Alma estivesse no centro do Império como peixe na água.
Entretanto, no tal Verão de 1901, com 21 anos, em que, ainda virgem, e querendo manter-se virgem, está apaixonada por Zemlinsky, Alma escreve, no seu diário, o seguinte:

«Desejo loucamente os seus beijos, não esquecerei nunca o contacto da sua mão no mais profundo de mim como uma cascata de chamas! Uma tal felicidade inundou-me! Podemos na verdade ser completamente felizes! Existe a felicidade completa! Aprendi isso nos braços do meu bem-amado. Com uma pequena [palavra ilegível] mais, teria subido ao sétimo céu. Mais uma vez, tudo o que lhe diz respeito me é sagrado».

São conhecidos os problemas de natureza sexual entre Alma e Gustav ao longo do seu atribulado casamento. As mãos de Gustav Mahler poderiam ser perfeitas para dirigir uma grande orquestra no palco, mas na íntima  penumbra do lar eram um verdadeiro desastre. Gustav podia ser um génio, e um génio que quis reduzir Alma à condição de sacerdotiza do marido. Muito mais velho do que ela, com certeza que pensava conhecer Alma, os seus desejos, as suas ambições, as suas necessidades. Alma, para Gustav, qual Pigmalião moderno, não passava de uma menina inteligente destinada a viver numa espécie de Olimpo cultural e artístico, rodeada de arte, de livros, de música, de imponente arquitectura. A Verdade, verdadinha, como se pode ver pelo seu diário, é que Mahler, ainda que pensando conhecer bem a sua consciência e personalidade, nunca chegou a conhecer as verdadeiras profundezas da Alma. Alma sabia que não estava casada com um homem qualquer. Gustav não era Gustav mas Gustav Mahler. Todavia, para ela, no mais profundo da sua inacessível e secreta alma, nunca terá passado de um homem superficial. 
Não sabemos, e com que pena sabe Deus, qual a palavra ilegível que, para Alma, servia de chave para abrir as portas do sétimo céu. Admito, pois, que haverá sempre mistérios por desvendar nesse obscuro  e misterioso continente chamado mulher, que haverá sempre mais uma palavra por descobrir. Isso é uma coisa. Outra coisa é ser, como Gustav, esse distraído e desajeitado homem que vivia para a música,  absolutamente analfabeto.