16 maio, 2012

IN VINO VERITAS




Lembra-se daquela famosa dupla de bêbedos que cantava “Ai Agostinho/ Ai Agostinha/Que rico vinho/Vai uma pinguinha”? Ou de expressões como “Anda metido no vinho”, “Fulano gosta da pinga”, “ Foi o vinho que deu cabo dele”? Antes da droga, o vinho foi a heroína do pobre mundo rural português. A taberna era a sala de chuto do Portugal salazarista. A famosa tacinha, em cima do balcão de uma taberna ou de um café, era bem  mais do que isso. Era a taça que consagrava a miséria social, a ignorância, o atraso de um país que cantava “Era o vinho, meu Deus, era o vinho, era o vinho que eu mais adorava, só por morte, meu Deus, só por morte, só por morte eu o vinho deixava”.
Hoje, porém, já quase não se vê vinho nos cafés das nossas aldeias, cada vez mais substituído pela cerveja. O que se passa então com o vinho? Que valor tem hoje o vinho na sociedade portuguesa? Suprema ironia, o vinho, após a sua desruralização, é hoje um fenómeno social de sentido inverso: um símbolo cada vez mais urbano e de demarcação social de elites sociais, intelectuais e artísticas, tanto à direita como à esquerda. Como explicar esta reviravolta?
Explica-se através do velho e clássico jogo do gato e do rato entre classes sociais com aspirações aristocráticas e classes populares que, graças à evolução social e económica das últimas décadas aspiram a subir na pirâmide social, tentando reproduzir, mais com dinheiro do que com semiótica, as práticas sociais  de quem tem mais estatuto. No fundo, o velho conflito entre o berço e o dinheiro.
O que fazer, então, para se poder demarcar dessa faixa mais inferior da pirâmide social e orgulhosa do seu recente sucesso e que ameaça perigosamente o domínio privado e muralhado das elites? Usar códigos sociais que o dinheiro não pode comprar, como por exemplo, a etiqueta. Códigos que requerem uma educação e a aprendizagem  de sinais e símbolos no interior das classes que, desse modo, aferem o seu grau de pureza social. Ora bem, é aqui que entra o vinho. Mas porquê o vinho? O que tem afinal o vinho que possa contribuir para essa identificação?
Será por haver vinhos caros? Não. Ter um bom carro ou ir tomar banho ao Brasil pode ser sinal de poder de compra, efeito da sociedade de consumo que permitiu a ascensão das classes mais baixas, transformadas entretanto em classes médias. Mas não necessariamente de distinção social, elegância ou de marca aristocrática. Um pobre a quem saia o Euromilhões pode, na semana seguinte, andar de Mercedes. Mas isso não faz dele uma pessoa distinta e membro de uma elite. Claro que ele pode ter essa ilusão, mas não passa disso mesmo. Aliás, historicamente, o novo-rico foi sempre alvo de chacota. O dinheiro pode comprar bens de consumo, títulos, casas, terras, viagens. Ou cremes, perfumes e roupas que podem ajudar a reconstruir e valorizar a máscara social de uma pessoa. Mas o dinheiro não compra a pureza, a autenticidade. O dinheiro pode servir para ajudar a compor uma personagem, uma máscara teatral. Nunca para formar um rosto autêntico por detrás da tal máscara que o dinheiro ajudou a polir.
O que se passa com o vinho é o que se passa com a estreita linha que separa o erotismo e a pornografia. Porque há uma linha estreita entre saber e não saber bebê-lo. Saber beber vinho implica saber jogar num terreno minado visto que, mal bebido, tem um efeito contrário: um efeito de decadência e degradação. Também a complexidade do erotismo está em saber jogar com uma exposição do corpo e da sexualidade que, nas mãos erradas, pode descambar facilmente no seu ponto extremo: a pornografia. Ora, para isso, é necessária uma delicada depuração dos sentidos, a aprendizagem de uma técnica subtil. É precisamente o que se passa com o vinho.
Saber beber vinho implica saber bebê-lo com algum pudor. Levá-lo à boca e mantê-lo dentro da boca com a delicadeza e discrição com que uma mulher é fotografada a preto e branco, numa atmosfera de penumbra que torna a nudez mais sugerida do que vista. Como se o corpo se desfizesse da carne, da matéria, e se reduzisse a um jogo complexo de formas, luz e sombras. Saber beber vinho, tal como o erotismo, é também um acto com um valor estético, sendo este tanto maior quanto mais consciência se tem de que quem não o sabe beber descamba facilmente numa crua vulgaridade. Por exemplo, não saber pegar no copo, não saber cheirar, não saber provar, não ser capaz de falar tecnicamente sobre ele (o ano, a casta, as matérias de que é feito) ou, pior ainda, bebê-lo como quem bebe uma imperial fresquinha e, no fim, ainda faz “Ahhhh!” e dá um estalo com a língua.
É por isso que o enólogo e o escanção, enquanto gurus idolatrados pelo bom apreciador de vinho, têm quase um estatuto de brâmanes epicuristas, visto saberem como ninguém usar o vinho de um modo quase espiritual e ascético. Beber vinho como se não o bebessem, numa perfomance erótica inacessível ao comum dos mortais. Saber beber vinho implica um aperfeiçoamento sensorial. Tal como o sabor da madalena em Proust, o vinho desmaterializa-se para adquirir contornos cada vez mais mentais. Mais importante do que o sabor do vinho, é o pensamento sobre o vinho e o que se diz sobre o vinho. Podemos aqui dizer do vinho o mesmo que Leonardo da Vinci da pintura: una cosa mentaleDo mesmo modo que se pode dizer que uma certa pintura é “fauve”, pode-se falar de um vinho em termos de textura, de adstringência dos taninos, acidez, da sua personalidade. Dizer que é encorpado, solto, cheio de nervo, que tem um delicado floral no fundo do copo, que tem baunilha ou um aroma elegante, falar do peso da madeira no seu sabor. Caracterizar o vinho como uma pessoa, como se um bom vinho tivesse mesmo uma complexa vida interior, mais rica até do que a de algumas pessoas, provavelmente daquelas para quem beber um Porta da Ravessa já é um grande feito ou que se deleitam com um carrascão feito à martelada. Estamos aqui no oposto da mancha de vinho entornada no balcão de alumínio do café, do alcoólico de cara vermelha, do vinho que se bebe “para matar a sede” ou com a ignorância e rude naturalidade com que se bebe um refrigerante. E o que se passa com o vinho enquanto “bela arte” é também o que se passa com o charuto. 
Daí não espantar o que contou um dia António Pedro Vasconcelos (APV) à Visão, ele próprio também um conhecido fiel militante da causa de Baco. Dizia o glamouroso realizador e também presidente dos Puros (um clube de fumadores de charuto), que, por birra, deixou de ir a Nova Iorque desde que passou a ser proibido fumar em locais públicos, ficando assim impedido de cumprir o ritual de um bom charuto após uma bela refeição, como se presume que serão todas as de APV. O interesse não está tanto no facto de APV querer que nós saibamos que ele vai a Nova Iorque como eu vou ali ao Pafarrão. O mais interessante está no facto de, para ele, fumar um bom charuto após uma boa refeição num bom restaurante, ser tão importante, que nem sequer concebe a ideia de ir a um país onde tal não seja possível. È como se APV, mais do que homem, português, europeu ou cineasta fosse um fumador de charuto ou apreciador de bons vinhos. Como se isso fosse a sua verdadeira identidade, a sua verdadeira pele, a sua natureza.
E se a natureza nos faz todos iguais, a vida encarrega-se de fazer com que uns sejam menos iguais do que outros. Aos vinhos bons estão associados um conjunto de práticas, praticados em certos contextos, funcionam como sinais exteriores de bom gosto e afirmação social. E isso é um bem que o dinheiro não pode comprar. Um novo-rico ou alguém da classe média-baixa com o subsídio de férias acabado de receber, pode entrar no restaurante que quiser. Mas não sabe escolher vinho, cheirar o vinho, falar sobre vinho como se falasse sobre Balzac. Nem escolher um bom charuto.
Há hoje uma classe de intelectuais, artistas, escritores que, vêem no vinho uma forma de fugir à mediocridade da classe média que chega aos supermercados e centros comerciais nos seus vaidosos automóveis. É gente que tem horror à banalidade, à mediocridade, à vulgaridade. Eu já vi pessoas como Francisco José Viegas, António Pedro Vasconcelos, António Barreto ou Clara Ferreira Alves, a falarem de vinhos do mesmo modo que no século XIX se discutia literatura, economia ou política internacional em salões bem-pensantes. Artistas e intelectuais que revelam um total desprezo por tudo o que são sinais de sucesso social suburbano, fazendo o que está ao seu alcance para se demarcarem e exibirem a sua superioridade estética e social.
Muito interessante esta história contada há anos pelo realizador João Canijo ao ter sido convidado pelo Fugas a falar sobre o vinho da sua vida. Contou que, um dia, inadvertidamente, pagou  3300 euros num restaurante por uma garrafa de Romanée-Conti Monopole. Garrafa que, como diz, só poderia beber se convidado por um amigo muito rico (ficamos a saber que o João tem amigos ricos). Ora, como tinha provado recentemente uma garrafa de Montrachet Romanée Conti pela qual dera 525 euros, pensou que, desta vez, valeria a pena beber outra garrafa igual, tendo para isso convidado dois amigos também apreciadores de bom vinho (Ficamos a saber que o João tem amigos apreciadores de bom vinho). Só que houve uma troca nas garrafas (veio uma de 1996) e lá veio a tal conta dos 3300 euros que o fez ficar branco como a cal. Agora veja-se. O homem fica branco por pagar, sim, mas 3300 euros por uma garrafa no restaurante (ficamos a saber que o João frequenta restaurantes que a ralé suburbana nem sabe que existem). Mas acha perfeitamente normal dar mais do que uma vez 525 euros contos por uma garrafa.
No meio de tudo isto, qualquer bom carro que o povo goste de levar ao centro comercial ou uma qualquer camisinha de marca, torna-se um objecto de uma ridícula banalidade. Já lá vai o tempo em que o vinho subia à cabeça. Agora é a cabeça que sobe até ao vinho.