23 maio, 2012

HOW TO DO SILLY THINGS WITH WORDS


Fazer, na verdadeira acepção da palavra, faz o canalizador que arranja uma torneira, o maquinista que conduz um comboio, a pessoa que prepara o almoço ou o nadador-salvador que salva uma criança no mar. Fazer, neste sentido, implica mãos, pura acção, prática que dispensa uma actividade discursiva. Na vida, porém, quase tudo o que fazemos é feito através do que dizemos e não de acções puras. Nós vivemos através da linguagem, nomeadamente, as coisas mais importantes que vivemos. Decidir, aceitar, rejeitar, prometer, incentivar. A política não é excepção. Fazer política é uma das formas mais evidentes em que dizer é uma forma de fazer. Daí eu ser sensível a esta frase do nosso ministro da Economia.
Eu convivo mal com a estupidez. Mas percebo que existem territórios onde se pode tolerar mais a estupidez do que noutros. Por exemplo, no futebol, quando, horas antes de um jogo, um treinador diz acreditar que vai ganhar. Na política, todavia, a estupidez é mais grave, ainda que saibamos ser praga que assola muitos ministérios de muitos e variados governos.
O que significa exactamente dizer que se acredita nas reformas que se estão a fazer? Significa atribuir à crença um critério de legitimação. Mas como pode uma crença ser um critério de legitimação do que quer que seja? Uma crença, só por si, não tem valor nenhum. Acreditar que existem ovnis não faz com que existam ovnis ou acreditar que o Benfica vai ser campeão na próxima época não faz com que o seja. Para que a crença tenha valor é preciso que seja verdadeira e não simplesmente uma crença. Por outro lado, como é possível pensar que um político pode governar através de coisas nas quais não acredita? Do mesmo modo que seria ridículo um treinador de futebol, horas antes de um jogo, dizer que a sua equipa vai  jogar para ganhar embora não acredite nisso, também não faria sentido um ministro dizer que se estão a fazer reformas importantes embora não acredite nelas.
Como explicar então estes tipo de frases estúpidas e ridículas? Faço uma analogia com o amor. O amor é quase sempre visto como critério de legitimação de uma relação, a base que sustenta e fundamenta essa relação. Um homem e uma mulher estão juntos porque se amam. É verdade que o amor, só por si, não chega para sustentar uma relação, mas pelo menos, serve para a justificar, admitindo-se, então, que embora não seja condição suficiente, será condição necessária, centrando-se quase tudo nesta condição. Mas o amor é o amor, como o futebol é o futebol.
Ora, o que o ministro da Economia nos diz é uma coisa do género. Ele diz que faz porque acredita no que faz. E se acredita no que faz, gosta do que faz, aprecia o que faz. Como hoje acordei um pouco lírico, direi mesmo que o ministro da Economia ama o que faz. Só que, também aqui, não é condição suficiente. Diria mesmo que é condição patologicamente insuficiente. Amar o que se faz não chega para legitimar o que se faz. Hitler também acreditava na Total Krieg, o que, como se percebeu depois, não fez dela qualquer coisa de especialmente interessante.
É por isso que fico em pânico ao ver ministros do meu país falarem deste modo, como se fossem simples adeptos do Benfica, de gorro na cabeça, garrafa de vinho na mão e riso indigente, horas antes de um jogo com o Sporting. O ministro pode muito bem acreditar no que diz. E sorrir, animado, quando diz no que acredita. Mas, na vida, contrariamente ao que sucede com um filme planificado minuciosamente pelo realizador, produtor e argumentista, nunca se sabe como o filme vai acabar, independentemente de previamente acreditarmos ou não que iria ter um final feliz.