15 maio, 2012

ESPELHO MEU

                                                               Zoe Leonard, Mirror nº2

O ESPELHO E A RAINHA: «O espelho estava muito orgulhoso tendo dentro de si reflectida a rainha, e quando esta se foi embora ficou em vil condição.» Leonardo da Vinci,  Códice Forster III


O espelho, tal como a rainha, pode sentir orgulho. Mas tem um problema. Enquanto a rainha pode existir sem o espelho, o espelho não existe sem a rainha. Claro que a rainha gosta do espelho. Mas gosta apenas enquanto dele precisa para se ver a si própria. E quando uma rainha olha para um espelho nunca vê o espelho mas apenas ela própria. O espelho, pelo contrário, sem os outros que nele se reflectem, é uma absoluta ausência de ser. Olha para a rainha, acreditando que a rainha olha para ele. E o que vê o espelho quando vê a rainha a olhar para si? Felicidade, admiração, atenção, amor, ficando inebriado com o olhar da rainha que não pára de olhar para si. 
Triste e dramática condição. Mas o espelho não passa de um objecto de vidro e sem consciência de si. Muito mais triste e dramático é ver seres humanos reduzidos à condição de espelho. Possuem uma consciência mas uma consciência que será sempre a consciência de outro e nunca a consciência de si. Se isso os faz felizes, será sempre a felicidade dos indigentes.