08 maio, 2012

EMPOBRECIMENTO DE LUXO

«Se queres ser perfeito, disse-lhe Jesus, vai, vende tudo o que possuíres, dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro nos céus; depois, vem e segue-me. [...] Jesus, disse então aos discípulos: em verdade vos digo que dificilmente entrará um rico no reino dos céus» Mt, 19

A classe média anda inquieta e angustiada com o empobrecimento da classe média. Todavia, a inquietação e angústia de muitos poderá antes significar um motivo de esperança. Esperança num velho projecto europeu que, embora confundido com a própria cultura europeia, foi sempre (não sendo  o século XX uma excepção) um projecto falhado e permanentemente adiado: o cristianismo.
Esperança no combate ao desenfreado materialismo e consumismo originados pelo florescimento económico das classes médias no pós-guerra, no combate a uma crescente futilização das classes médias, cada vez mais obstinadas com o ter em vez do ser, cada vez mais  obcecadas com a ostentação dos pequenos luxos, cada vez mais mergulhadas nas vaidades de uma vida oca e sem sentido.
O empobrecimento da classe média, e penso concretamente em Portugal, pode obrigar as pessoas, depois de um enriquecimento quase pornográfico nos anos 80, a refrear as suas obsessões com um parque automóvel de fazer inveja aos franceses, viagens que as levam a qualquer parte do mundo, gadgets topo de gama, roupas de marca e tantas outros sinais exteriores de vaidade.
Eis, pois, um empobrecimento de luxo, um empobrecimento que pode servir de base a uma reaprendizagem de certos valores, necessidades e objectivos de vida há séculos defendidos pelo cristianismo ou por uma esquerda que, inebriada com a ideia de igualdade, nunca se mostrou escandalizada com a vida humilde (para não dizer miserável) dos habitantes dos países comunistas. O empobrecimento das classes médias ou até da classe operária, pode ser até um enorme capital de esperança para a esquerda que perdeu os netos de Catarina Eufémia, formatados pelos Morangos com Açúcar e obcecados por gadgets,  e que, graças à crise, poderão ser recuperados pelos eternos defensores dos humilhados e ofendidos, que precisam de humilhados e ofendidos para sobreviver politicamente (os que deixam de ser humilhados e ofendidos passam a votar no PS, no PSD ou no BE).
Foi Maquiavel, e mais tarde, já no século XX, Isaiah Berlin, quem melhor compreendeu a impossibilidade de conciliar projectos morais e civilizacionais antagónicos. No caso do primeiro, a impossibilidade de conciliar a mansidão e interioridade dos valores cristãos com a virtu romana.  A riqueza que só pode ser obtida através de uma dinâmica capitalista não é compatível com a humilitas cristã ou com o tipo de riqueza que podemos descobrir no Evangelho. Daí a religiosa esperança que poderá advir do empobrecimento da classe média. Não falo, obviamente, de pobreza, indigência, fome ou miséria. Falo apenas de aprender a valorizar na vida o que verdadeiramente merece ser valorizado. No fundo, o Sermão da Montanha não andará muito longe dos Manuscritos Económico-Filosóficos de Marx. Um futuro de luxo pode estar finalmente à nossa espera.