24 maio, 2012

CASSANDRA AO ALMOÇO



Ontem, à hora de almoço, enquanto atacava uma costeleta de porco, o meu filho de 14 anos pergunta-me o que se aprende em Filosofia. Nestas situações convém manter o sangue-frio e não complicar. Disse apenas que a filosofia começa onde acaba a ciência. E dei-lhe dois exemplos.
Pensar se os animais, apesar de não serem pessoas, devem ter direitos como as pessoas, implica filosofar. A ciência, através da observação e com sofisticados instrumentos pode explicar se um animal tem dor, que tipo de dor tem ou o que sente por viver na jaula de um circo ou zoo. Mas a ciência enquanto ciência, o cientista enquanto cientista, não pode dizer se o facto de o animal ser menos inteligente do que o ser humano é critério para o fechar numa jaula ou se o facto de sentir dor, física ou psicológica, como o ser humano, é critério para não se poder fechá-lo numa jaula.
Pensar se, sendo os seres humanos naturalmente desiguais, a sociedade deverá reflectir essas desigualdades ou se, pelo contrário, deverá corrigi-las, fazendo com que todos possam usufruir dos mesmos bens em condições de relativa igualdade, implica filosofar. Como implica filosofar, pensar se os ricos devem pagar mais ou menos impostos, se o Estado deve investir mais ou investir menos para melhorar a vida individual das pessoas, se uma pessoa deve ser penalizada por ser menos inteligente, menos empreendedora ou ter uma profissão que, sendo importante, não é tão dignificada socialmente.
Lá lhe expliquei que se trata de problemas que envolvem ciências como a Biologia ou a Economia, as quais, embora descrevam e expliquem a realidade, não têm respostas para eles. Não é a Economia que nos diz o que é a justiça, não é a Economia que nos diz o que é a felicidade, do mesmo modo que não é a Biologia que nos diz o que é um valor ético. Só a Filosofia o poderá fazer. E se um cientista quiser entrar nele, terá que o fazer enquanto filósofo e já não enquanto cientista.
Depois de  me ouvir com atenção, e com aquela distante satisfação dos adolescentes, lá respondeu, enquanto mastigava a costeleta: «-Parece-me interessante». O professor de Filosofia ficou contente e orgulhoso. O pai ficou aterrorizado.