07 maio, 2012

O SILÊNCIO NOS LIVROS

                                                                        August Sander

Tive, há dias, uma experiência do tempo histórico enquanto tempo morto e irrecuperável, independentemente da quantidade de documentos e dados estatísticos que permitem uma visão empiricamente consistente do passado. Mas qual o verdadeiro valor de tal visão? E qual o valor de um estudo empírico enquanto base de uma experiência intersubjectiva entre pessoas de diferentes tempos? O que conhecemos verdadeiramente do passado ainda que dominemos e controlemos cientificamente esse passado?
Na semana passada eu estava a ler na biblioteca da minha escola, apercebendo-me, a pouco e pouco, de que não conseguia continuar a leitura. Olhando à minha volta, percebo então que existe na biblioteca o mesmo tipo de ruído de fundo e de corpos em movimento que se encontram num café cheio de gente. Toda a gente, professores e alunos, falam com a mesma  desenfreada espontaneidade com que falam num café: levantam-se, sentam-se, arrojam cadeiras, caminham como se fosse na rua. Há alunos que falam alto mas há professores que ainda conseguem falar mais alto do que esses alunos. Ninguém dá por nada, ninguém se espanta, ninguém tem consciência da situação.
Foi precisamente isto que me fez ter uma consciência mais aguda da experiência histórica enquanto experiência da morte, enquanto experiência de vivências irrepetíveis e irrecuperáveis e, por isso, incompreensíveis, ainda que tenhamos a ilusão do contrário. Enfim, a experiência de viver em dois mundos diferentes cujos conteúdos não são coincidentes, uma vez que os sinais que emergem num mundo novo implicam necessariamente a morte de outros.
Uma biblioteca, hoje, continua a ser o que sempre foi, independentemente de ser na antiga Alexandria, na Idade Média ou no século XIX. Uma biblioteca, distinguindo-se de uma cozinha, um teatro, uma piscina ou uma loja de roupa, é um sítio onde há livros. Livros para serem lidos no próprio local ou para serem emprestados aos leitores. O conceito de biblioteca, neste sentido, continua igual ao que sempre foi. Se eu agora viajasse no tempo e fosse parar à Idade Média, dizendo a um monge que acabara de estar numa biblioteca, ele pensaria compreender o que lhe estava a dizer. Do mesmo modo, se um lisboeta, londrino ou parisiense do século XIX acabasse agora de chegar ao nosso tempo e dissesse a um aluno ou professor que, habitualmente, gritam e falam ao telemóvel numa biblioteca como se estivessem numa taberna, também estes iriam julgar compreender a mensagem.
Trata-se, porém, de uma ilusão. O conceito de biblioteca é o mesmo mas há uma irredutível separação e descontinuidade entre os diferentes modos de entender uma biblioteca resultante dos diferentes modos de nos relacionarmos com os livros (respeito pelo livro enquanto objecto cujo valor simbólico é diferente do valor de uma revista de decoração), das diferentes formas de encarar o acto de ler, do diferente valor da literatura ou de um ensaio, do diferente respeito pela leitura do outro, enfim, da própria diferença no modo como entendemos a relação da biblioteca com o mundo exterior.
A burguesa, conservadora e elitista biblioteca do século XIX já não existe. Mais uma vítima forçada do "século do povo", imolada no altar das grandes conquistas populares. A nova biblioteca, continuando a ser uma biblioteca, cria a ilusão de uma continuidade no tempo e de uma uniformidade na experiência humana, independentemente da época histórica. E é precisamente isto que se passa igualmente com uma guerra, a pobreza, uma crise moral, a experiência familiar, o divertimento, o prazer, etc. Afinal, tudo o que acontece ao longo do tempo e que se transforma, no futuro, em estudo histórico, como se de um fóssil se tratasse.
Não há, na história, intersubjectidade. A história não passa de um trabalho de ficção que astutamente se serve de elementos documentais para poder ser levada a sério.