01 maio, 2012

1 DE MAIO

                                                                                  Lewis Hine

Se há feriado que não me diz absolutamente nada é o de hoje. Decididamente, hoje não é o meu dia. Detesto a ideia de me pensar ou sentir como trabalhador. Tanto, como nas Finanças ser tratado por "senhor contribuinte" ou por "senhor consumidor" numa loja, por "senhor utente" num hospital ou autocarro ou, pior ainda, de acordo com a mais recente moda que infectou a caixa dos pirolitos dos professores modernos, por "colaborador" em vez de professor. Confesso que até a própria ideia de ser um cidadão me provoca uma espécie de comichão.
Eu trabalho porque preciso de dinheiro para viver e teria muito prazer em não trabalhar. Não é que eu não tenha prazer em trabalhar. Direi mesmo que até gosto bastante daquilo que faço. Mas ser metamorfoseado em trabalhador já é outra conversa. O trabalho é apenas uma parte do dia que eu me esforço por esquecer o mais possível quando não estou a trabalhar. Quando trabalho, trabalho, embora sempre com a ideia de deixar de o fazer, quando não trabalho, não trabalho e sempre com a ideia de como seria bom não deixar de o fazer.
Nunca compreendi aquela retórica marxista acerca do trabalho e do trabalhador e ainda hoje sinto arrepios com aquela mitologia soviética do operário e do camponês, do engenheiro e do trabalhador intelectual. Até um escritor era um trabalhador intelectual. Um escritor não é um trabalhador mas apenas alguém que gosta de escrever.
Nada tenho contra os trabalhadores. Eu próprio sou também trabalhador e tenho muito respeito por todos os desempregados que sofrem por não terem emprego. Apesar de gostar muito de não trabalhar, também eu estaria agora a sofrer se não tivesse trabalho. Mas também nada tenho contra os consumidores e não gosto de ser tratado por consumidor. Eu gosto de consumir, adoro consumir coisas boas como livros, chocolates, roupa, champôs e pequenos electrodomésticos para a cozinha. Mas não me chamem consumidor ou façam comemorar o dia do consumidor, se é que tal coisa existe.
O dia de hoje é bom precisamente porque posso aproveitar para fazer uma das coisas de que mais gosto de fazer na vida: nada. Dizia o outro que entre a dor e o nada preferia a dor. Há pessoas que precisam de trabalhar ou, pior ainda, de trabalhar muito para se sentirem vivas. Lá nisso, assumo, sou diferente: entre o trabalho e o nada, prefiro o nada. Amanhã, às 8 e 30 da manhã, voltarei de novo a ser alguém.