22 abril, 2012

SENSAÇÕES MORTAS


Estive a descascar favas. Favas oferecidas pela pessoa que as cultivou e apanhou. Eu sei que descascar favas não será acto empolgante e que justifique grandes apontamentos. Acontece simplesmente que, pelas minhas contas, há cerca de 40 anos que não o fazia, tendo, através dele, o meu momento de madalena no chá. Neste caso, não por via das papilas gustativas mas do tacto e motora, voltando de novo a sentir a textura aveludada do seu interior assim como os mecânicos movimentos necessários ao acto de descascar.
E, como ao contrário do mundo, o território da consciência é livre e aberto, dei comigo a pensar na vacaria onde, em garoto, cheguei a ir várias vezes buscar leite em recipientes levados de casa, lembrando-me do cheiro, dos sons, da ambiência específica do lugar.
Favas e vacarias têm tanto em comum como uma árvore e uma rocha. O que me levou mesmo a associar uma coisa a outra foi a ideia de sensações historicamente mortas. Quando pensamos na história enquanto tempo passado e morto, pensamos sobretudo através da visão. É pela visão que recuperamos o aspecto físico de Napoleão ou D. Pedro IV, é pela visão que recuperamos uma viagem à Índia, a batalha de Aljubarrota, a assinatura de um tratado, uma crise económica, a peste negra, Sócrates a discutir a justiça na ágora ateniense. Digamos que a nossa memória histórica ou processo de recuperação histórica é fundamentalmente fotográfico ou cinematográfico. Daí a sensação de conhecimento ou conservação do passado. Do tempo passado como património que, como facho olímpico, vai sendo transmitido de geração em geração.
Mas como transmitir sensações mortas? É fácil criar, na imaginação, um arquivo fotográfico ou cinematográfico. Acontece que a visão, sendo de todos o órgão mais valorizado e que mais tememos perder, é um órgão contemplativo ou teórico. A visão de uma realidade, dando-nos a ilusão de uma proximidade, marca também uma distância, uma zona de ignorância entre nós e essa realidade. Daí que, apesar do seu poder contemplativo, exista sempre nesse passado uma zona impermeável ao poder da nossa consciência. Nomeadamente, os sons, os cheiros, as texturas que ficam irremediavelmente enterradas por baixo das imagens que, coloridas e vivificadas pela nossa consciência fotográfica, sobrevivem aos destroços do tempo.
Hoje já ninguém descasca favas ou vai buscar leite a vacarias. As favas estão na secção dos congelados dos supermercados e onde era a vacaria onde eu ia buscar leite, temos hoje uma rua urbana e cheia de carros. Quando eu morrer e morrerem todos os que um dia descascaram favas e entraram em vacarias para irem buscar leite,  morrerá também uma parte da história para a qual não existem museus, exposições ou arquivos.