27 abril, 2012

O VENTO LEVA A FLOR

                                                                          Pál Merse

Disse uma aluna que, segundo contaram os pais, a sua irmã foi feita debaixo de uma oliveira. Eu, professor  há tantos anos habituado a ouvir de tudo, ainda assim não pude deixar de ficar sensibilizado e até comovido.
À primeira vista pode parecer indiferente o sítio onde somos feitos. Seja um locus mais tradicional como uma cama, meia hora depois de acabar a telenovela e com a cozinha já arrumada, seja um locus mais heterodoxo como, sei lá, o interior de um elevador algures parado entre o 4º e o 5º andar, um confessionário ou a parte de cima de uma máquina de lavar roupa durante a fase de centrifugação. Trata-se, contudo, de uma indiferença enganadora, tendo eu consciência disso desde que sei que Tristam Shandy foi quem foi apenas porque durante a noite em que os seus pais o concebiam, no momento sempre vital e complexo em que o pai se preparava para transmitir a substância homuncular, a mãe, preocupada, lhe pergunta se não se tinha esquecido de dar corda ao relógio, influenciando assim, indelével e dramaticamente, os espíritos vitais que se transfusionam de pai para filho.
Eu não faço a menor ideia do sítio onde fui feito, nem tenho, confesso, especial curiosidade. Agora que já me conheço, nem quero pensar por onde terão os espíritos vitais que estão na origem deste ser humano  de triste figura que sou eu. Mas não consigo deixar de achar romântica a ideia de alguém  ter sido feito debaixo de uma oliveira, como esta irmã da minha aluna. Enfim, é o meu lado bucólico, botticelliano, impressionista ou dionisíaco a pensar na Nastassia Kinsky como Tess d'Auberville a comer languidamente uma maçã no countryside inglês. Como será fácil de compreender, nada tenho contra as camas. Mas há qualquer coisa de perfunctório na cama que nada tem que ver com o milagre de uma vida que começa. As camas são boas para nelas nascermos, morrermos, adoecermos ou ler um livro antes de adormecer. E, também, claro, não o nego, para ao sábado de manhã antes de saírem para as compras no hipermercado, os amantes se entregarem aos sagrados sortilégios do deus Eros. Mas fazer um ser humano, dar origem a um ser humano é coisa demasiado grande para o espaço limitado de uma cama, por sua vez, limitada por quatro paredes de um qualquer urbano T3. Fazer um ser humano deveria obrigatoriamente invocar os espíritos vitais do céu e da terra, das flores e das árvores, das aves e dos insectos, do Sol e do vento. Eu não conheço a irmã da minha aluna. Mas é, de certezinha absoluta, uma rapariga abençoada por Deus.