12 abril, 2012

A NOITE E O RISO

                                                                        Robert Doisneau

O melhor estado de estado de espírito para viver deverá ser uma mistura de resignação e humor. A ideia é de Somerset Maugham e eu assino por baixo. Lembrei-me agora dela por ter acabado de ler A Vida em Surdina, o meu quarto romance de David Lodge.
Um romance que começa num registo burlesco, com uma festa na qual um professor universitário reformado, a braços com um processo de crescente surdez, dá por si, involuntariamente diga-se, inclinado para dentro da blusa de seda vermelha de uma rapariga com um generoso peito, para depois acabar com uma pungente reflexão sobre Auschwitz após uma visita ao local, sobre a morte da primeira mulher, de cancro fulminante, que ajudou a provocar, deitado a seu lado, e sobre a morte do pai cuja decadente parte final da vida (demência, fragilidade física, falta de cuidados de higiene de um viúvo solitário), acompanhou com um misto de angústia, tolerância e compaixão.
Tudo isto tem com a surdez como ponto de partida. Surdez que tem tanto de cómico como a cegueira de trágico. Interroga o narrador se Édipo inspiraria terror se em vez de vazar os olhos perfurasse os tímpanos? Não,  porque a surdez não tem o pathos da cegueira. A cegueira tem tanto de sublime quanto a surdez de ridículo.  A cegueira inspira respeito nos outros, a surdez será sempre caricata e motivo de riso.
Só que ao longo da história nos vamos apercebendo de que a surdez funciona aqui como uma antecâmara da morte, um afastamento do mundo dos vivos, uma introdução à solidão e inconsciência da morte. Entende-se, assim, como um romance que começa num registo cómico e burlesco, termina, muito subtilmente, num registo trágico e dramático. Neste caso, não é suposto dizer que a história se repete, primeiro como tragédia, depois como comédia. Neste caso, pelo contrário, tragédia e comédia caminham lado a lado, siamesas, ou como dois lados da mesma moeda.  Completando-se, portanto. Dá vontade de dizer que a comédia, por si só, é indigente, e que a tragédia, por si só, é destruidora. Neste sentido, tanto podemos afirmar que a tragédia confere densidade e profundidade à comédia do mesmo modo que a comédia traz à tragédia o suficiente oxigénio para se poder viver sem desesperar.