18 abril, 2012

EXCESSO DE TEMPO

                                                                     André Kertész

O modo como se despreza e rejeita um pai ou uma mãe que envelheceram mas que um dia, jovens, cuidaram de nós e se sacrificaram por nós, não é apenas um problema de insensibilidade e degradação moral mas de má relação com o tempo e a consciência de identidade. Neste caso, um velho não passa de alguém cuja identidade está configurada pela velhice. Quer dizer, a velhice é o que determina a sua identidade, a sua essência enquanto ser humano. Nós perguntamos "Quem é?" e a resposta é "Um velho". Como se toda a sua identidade global estivesse submetida à particular contingência de, aqui e agora, estar velho.
Mas o velho de agora é exactamente a mesma pessoa que, outrora, foi jovem e criança. Não são duas pessoas mas uma só. O mesmo velho que sofre agora com uma doença ou por ter sido abandonado pela família é exactamente a mesma criança que um dia sofreu com uma dor de ouvidos ou com medo. Foi há muito tempo, é verdade, mas não se trata de duas pessoas, de duas pessoas fragmentadas em dispersas unidades temporais.
Os jovens pais que adoram as suas crianças, que por elas tudo fazem e que sofrem com o sofrimento delas poderiam fazer o exercício de imaginar que essas suas actuais crianças um dia irão ser adultos, irão ter filhos, e que um dia poderão vir a sofrer por abandono. Muito provavelmente os actuais pais irão sofrer por antecipação, ao imaginarem que os seus ricos meninos que tratam com mil cuidados, um dia irão sofrer de depressão e solidão porque os seus próprios filhos os abandonaram.
Mas trata-se de um exercício difícil. E é difícil porque a consciência da identidade facilmente se dilacera perante as aparências sensíveis. A realidade torna-se apenas no que simplesmente vemos, aqui e agora, à frente dos olhos, não sendo capazes então de compreender que o tempo, ou o abismo cronológico do tempo, não passa de uma ilusão que fragmenta artificialmente a verdadeira realidade das coisas. 
Os filhos não rejeitam e desprezam os seus velhos pais por falta de tempo. Rejeitam porque têm tempo a mais.