14 abril, 2012

ESSE OBSCURO OBJECTO DE CURIOSIDADE

                                                                       Garry Winogrand

Mais do que como objecto de desejo, vemos aqui um corpo feminino como objecto de curiosidade. Claro que não sou ingénuo para pensar que desejo e curiosidade podem aqui separar-se. Não se trata de uma curiosidade teórica, científica, uma curiosidade ligada ao saber, embora também o seja, pois observam, estudam, estão atentos aos pormenores. De facto, se olhássemos apenas para a assistência, ignorando o objecto da sua atenção, poderíamos naturalmente pensar que estariam numa aula, a assistir a uma conferência ou a um jogo de futebol na televisão.  A pose é a mesma, o olhar, as expressões. Mas também sabemos que não é a mesma coisa. Aquele corpo feminino não está a ser visto como se se tratasse de um objecto neutro. Ainda que interessante ou fascinante mas neutro. 
Eu lembrei-me desta fotografia ao passar mais uma vez os olhos por um dos quadros de juventude de Ticiano, Amor Sagrado e Amor Profano (1514). Numa prova cega, sem dispor das referências simbólicas e filosóficas do quadro, uma pessoa distraída poderia ser levada a pensar que a mulher vestida corresponderia ao amor sagrado (pela associação ao pudor, a uma desvalorização do corpo em oposição a uma valorização do lado espiritual e interior) enquanto a mulher nua seria o amor profano (a sensualidade, o erotismo, o corpo apresentado na sua mais pura evidência física e ostentação carnal). Mas é precisamente o contrário. Independentemente das naturais distinções entre as culturas pagã e judaica-cristã, é óbvio que o amor sagrado corresponderia à mulher nua. Porque se trata de um corpo imaculado e não sujeito aos condicionalismos morais e religiosos do mundo social e profano. No fundo, trata-se de uma nudez adâmica, pré-moral e pré-social. De uma nudez inconsciente como a nudez das crianças, que têm um corpo mas sem a consciência de o ter. O corpo que se veste, pelo contrário, é um corpo cujo conteúdo moral é tão pregnante que obriga a atenuar a sua excessividade, o seu excesso de ostentação carnal e sexual. Não é por acaso que, durante a Idade Média, encontramos teólogos que defendem a nudez durante o baptismo de adultos, nudez associada a um segundo nascimento e até associada à nudez de Cristo na cruz. Um corpo sem vergonha e mácula, no fundo, um corpo sem corpo. Ora, é este corpo que se tornou irremediavelmente inacessível e transcendente, tal como a suposta linguagem adâmica, uma linguagem anterior a qualquer linguagem e torre de Babel. Ainda que se tente explorar um discurso neutro a respeito do corpo, seja através do discurso naturalista da ciência, da arte, ou de uma ideologia "moderna e aberta", amoral ou moralmente "arejada".
Nesta fotografia encontramos apenas uma hiperbolização dessa impossibilidade. O olhar hipnoticamente atento daqueles homens, a sua mórbida curiosidade perante aquele objecto de carne e osso, muito provavelmente numa qualquer sarjeta underground de uma grande metrópole, será sempre, inevitavelmente, o olhar sobre o corpo no cinema, na arte, na rua, na praia, no quarto. Nu ou vestido. Porque um corpo vestido será sempre um corpo que não está nu, um corpo nu será sempre aquele que não está vestido. Nunca o corpo sagrado do quadro de Ticiano: um corpo esquecido de si próprio como uma árvore esquecida de si própria perante outras árvores igualmente esquecidas de si próprias. Quando a inocência se perde é para sempre.