19 abril, 2012

DOS CONSERVADORES

                                                                Bernard Berenson visitando a Galeria Borghese, Roma, 1955

Tal como no atletismo, também se pode dizer  que existem escritores de fundo e de velocidade.  Daí Nabokov falar de Tchekov como sprinter em vez de stayer: 
«Um editor disse-me uma vez que cada escritor traz gravado dentro de si o número exacto de páginas que nunca ultrapassará em nenhum livro. O meu número era, salvo erro, o 385. Tchekov nunca poderia escrever um verdadeiro romance comprido. Era um sprinter e não um stayer. Dá a impressão de que não sabia manter focado, durante muito tempo, o padrão de vida que o seu génio apanhava por todo o lado; só era capaz de manter o encanto vivo deste padrão pelo período necessário a um conto, mas não podia conservar os pormenores necessários a uma narrativa longa e em grande escala».
Pensando na velha frase que nos diz que é a vida que imita a arte e não o contrário, dá vontade de dizer que existem pessoas que vivem como Tchekov (escritor de respiração curta), outras que vivem como Tolstoi. Tchekov é capaz de explicar a vida inteira de um ser humano em poucas páginas. Tolstoi consegue escrever dezenas de páginas sobre um simples facto, seja social ou psicológico.
Tomando como ponto de partida o problema da duração, não faz sentido falar, na literatura, em escritores revolucionários ou conservadores. Na vida, porém, as coisas são completamente diferentes. De acordo com uma lógica da duração, viver como se estivéssemos num romance de Tolstoi tem um sentido conservador, enquanto viver como num conto ou no teatro de Tchekov, revelará um impulso para a mudança e viver no domínio do instante e da fugacidade. Enquanto Guerra e Paz parece nunca mais acabar, porque haverá sempre mais alguma coisa para dizer ou reflectir, Tchekov passa das Três Irmãs para o Ginjal e deste para a Gaivota, ou de um conto de cinco páginas para um outro de dez como uma rã de nenúfar em nenúfar.
Na vida, ser conservador é querer mudar quando o que se vive já não pode ser salvo. É ver tudo como um livro que parece não chegar ao fim, em que haverá sempre mais uma frase, um parágrafo, um capítulo para escrever. É continuar a aceitar o que está vivo e respira e apenas evitar o que está moribundo e chegou ao fim.
O número de Nabokov era 385. Cada ser humano, na vida, terá o seu. Uns precisam de escrever mais, outros precisam de escrever menos. Porém, haverá ainda aqueles que gostariam de escrever longos livros como Guerra e Paz só que não têm jeito para escrever. Não é fácil ser conservador, não é fácil escrever  e muito menos escrever bem. É muito mais fácil acordar de manhã com impulsos revolucionários ou reformistas puramente virados para a acção.