25 abril, 2012

CHUVA

                                                                             JRC


Eu gosto de pensar nalgumas datas associadas a certas disposições meteorológicas. Por mim, na Sexta-Feira de Paixão estaria sempre a chover enquanto no domingo de Páscoa faria Sol. A noite de Natal deveria ser sempre fria e escura mas já o dia de Ano Novo deveria ser marcado pela luz. Para mim, o 25 de Abril seria sempre um dia de chuva. E não apenas porque o original dia 25 de Abril foi um dia cinzento e chuvoso. Um dia cinzento e de chuva para poder marcar um tempo cinzento e de chuva que iria findar.
Eu tinha 13 anos no dia 25 de Abril de 1974. Toda a minha infância, portanto, coincidiu com o regime anterior. Ora, se eu associar a minha infância à meteorologia, a minha cabeça é de imediata povoada com dias de luz. Tive uma infância feliz e, por isso, é com a luz do Sol que a pinto na minha imaginação.
Porém, quando penso em várias coisas da minha vida associadas directamente ao regime, a primeira coisa que me vem à cabeça é a "chuva".
Criança ainda, a minha imagem mais forte do fascismo são aqueles chuvosos finais de domingo que antecipavam uma semana na escola nas mãos e olhos pérfidos do professor Lagarto, uma mistura de professor e de ogre que esperava por nós diariamente no seu castelo amaldiçoado. Os inícios de domingo, ainda que chovesse, eram um espaço de liberdade: um dia sem ter de olhar para o mórbido crucifixo ao fundo da sala ou para os mapas das colónias pintados de um cínico colorido. Um domingo de brincadeira, em que a nossa alma não era lavada, esfregada, centrifugada para, finalmente, ser posta a secar ao vento.
E a angústia estava exactamente aí: na percepção de que, no fim de cada domingo, quando a escuridão já fazia adivinhar as trevas que desciam sobre as nossas vidas, a liberdade chegava ao fim, e em que a chuva, com a sua maldita humidade, passava a criar bolor numa alegria que degenerava facilmente em angústia.
É engraçado. Hoje, por muito que pense no fascismo de um ponto de vista político económico, social, económico, cultural, é sempre a imagem da chuva que prevalece. A chuva não é, neste sentido, nem um conceito, nem uma sensação: é ambas as coisas. A chuva, enquanto forma pessoal e íntima de lembrar o fascismo, tal como certos cheiros ou sabores, dá-me ao conceito de fascismo uma imagem ou sensação. Ao pensar nos obscuros finais de domingo, a chuva permite juntar o pensamento e a sensação numa única gaveta.
Como nunca fui preso, censurado, torturado, exilado, o fascismo, para mim, está todo concentrado naquela atmosfera fria, cinzenta e chuvosa que transformava a liberdade de domingo em angústia de domingo.
O 25 de Abril, por isso, teria de ser um dia cinzento e chuvoso: uma despedida, um epílogo, um pouco como aquilo que fazemos quando nos vamos embora de um sítio e, por uma última vez, viramos a cabeça para guardar uma imagem final.