06 março, 2012

OLIVEIRINHA DA SERRA

Vincent Van Gogh

Passando um dia pela Azinhaga, José Saramago falou do seu desencanto por já não lá encontrar os olivais da sua infância ou por ver a casa dos avós sem oliveiras. Pediu então que, em sua homenagem, plantassem algumas oliveiras na sua terra natal, lembrando ainda as duas que possui no seu jardim de Lanzarote. O que me atrai aqui nem é propriamente o facto de isto parecer uma troca do trenó do Citizen Kane pela oliveira mas o seguinte: houve um tempo em que a minha relação com a oliveira não foi fácil. Achava-a uma árvore feia, raquítica, encarquilhada, pouco verde e com folhas humildes. A própria paisagem que costuma albergar as oliveiras não era, também, a paisagem dos meus sonhos.
Nós vamos à Europa e vemos prados de um verde que é verde, verde, verde. E bosques com árvores que mal deixam passar a luz do sol, dando-lhes assim uma atmosfera feérica e quase mística. Já perante olivais, não encontramos o verde que é verde, verde, verde, mas um verde tropa, pálido, desmaiado que, sobreposto a uma árida terra castanha, dá uma paisagem bem distante de um cenário de ópera wagneriana onde, em florestas fumegando nevoeiro, o natural se mistura com o sobrenatural.
Hoje, porém, sobretudo em dias de luz mística, os meus olhos já conseguem desocultar a verdadeira beleza dos olivais. Ver, finalmente, o que já tinham olhado centenas de vezes, mas sem ver. Para olhar basta ter olhos. Mas para ver é preciso muito mais. Não saber ver um campo com oliveiras é o mesmo que se passa por vezes com a arte: não gostamos porque não percebemos. E não percebemos porque não somos capazes de atribuir um sentido ao que vemos.
É o que se passa também com a beleza dos olivais. Dificilmente conseguimos desocultá-la, se os nossos olhos estiverem ofuscados com a imponência da montanha, com o umbroso e misterioso bosque dos contos infantis, com a intempestividade do mar. Paisagens mais românticas no sentido em que estimulam desde logo um fervilhar de emoções fáceis.
Mas quando perante um olival, os nossos olhos aprendem a ver a cultura que está presa às suas raízes, dificilmente conseguimos resistir-lhe: a “mediterraneidade”, o azeite, os espargos selvagens que crescem junto aos troncos das oliveiras, o impudico e agreste sol do sul, o som das cigarras nos dias quentes, as ervas aromáticas que vicejam pelos campos.
 Tudo isso é ainda realçado, se aprendermos a ver a identidade de um povo através de um inconsciente feito de memórias fenícias, cartaginesas, gregas, romanas, árabes, ingredientes que nos fazem ajudar a perceber o mítico esplendor de uma paisagem. De uma paisagem que bordeja um mar esplendoroso que testemunha séculos de história vividos entre a Península Ibérica e os campos da Síria.
De uma paisagem que, não sendo romântica, mas diurna e solar, não nos anula. Passear entre olivais, significa manter a nossa individualidade perante uma paisagem que não tem a irracionalidade sublime de um oceano que nos sufoca, de uma montanha que nos esmaga, de um umbroso bosque que nos apaga.
De uma paisagem que foi a paisagem de Homero, Safo, Hesíodo, Sófocles, Anacreonte, Píndaro, Sócrates, Platão, Aristóteles, Epicuro, Vírgilio, Ovídio, Cristo, Pedro, Paulo, Orígenes, Inácio de Antioquia, Marco Aurélio, Séneca, Adriano, Horácio, Fílon e Clemente de Alexandria, Tertuliano, Agostinho, Isidoro de Sevilha, Maimónides, Avicena, Averróis, Camões, Bernardim, Cervantes, Garrett, Castilho, Caeiro, Cavafis, Camus, Yourcenar, Durrell.
De uma paisagem onde Teseu derrotou o Minotauro, onde Leónidas derrotou os Persas, onde Antígona desafiou a Cidade. Foi ainda por entre oliveiras que Pã tocava a sua flauta e Dioniso bebia vinho. Onde Jesus, aquele a quem chamaram Cristo, fez o seu sermão da montanha. 
Olivais e vinho. Azeite e vinho. Olivais, azeite, vinho, tudo isso absorvido pelo espírito de vários povos que fizeram dessa paisagem a sua razão de existir. Entramos num território onde os cinco sentidos são polidos por milhares de anos de descobertas, invenções, poesias, sistemas filosóficos, religiões, mas também por milhares de anos de uma ciência que ensinou a habitar a paisagem, sendo difícil saber se foi a paisagem que se humanizou, se foi o homem que se naturalizou.
A oliveira é uma árvore muito nossa. Onde dantes eu via ramos encarquilhados e sem jeito, vejo agora ramos que crescem livremente na companhia de um luminoso sol mediterrânico. A oliveira não é uma árvore que cresça aprumadinha, certinha, que procure a verticalidade protestante. Não é uma árvore calvinista ou pietista que se dê bem nos climas frios e austeros do norte da Europa. A oliveira é, para o bem e para o mal, a nossa árvore. E que o vento leve a flor. Ó-i-ó-ai!