03 março, 2012

O SOPRO DE DEUS

Manuel Alvarez Bravo


Lá para o meio de Amores Perros, diz uma personagem a outra: ”Se queres pôr Deus a rir, conta-lhe os teus projectos”. A frase, que tem tanto de irónico como de trágico, desarma qualquer um, funcionando como um espelho através do qual observamos a nossa finitude.
Quando projectamos coisas, nunca pensamos nos despistes que nos esperam a meio de uma viagem, no desemprego que surge de repente, no exame médico que revela o que não queríamos ouvir. Do mesmo modo, mas  em sentido contrário, nunca poderíamos imaginar que foi graças a termos sido despedidos de um emprego, que viemos a encontrar, meses mais tarde, um rumo certo para a nossa vida. Ou que foi por não termos entrado em Medicina, por uma décima, que fomos obrigados a escolher Farmácia, tendo aí conhecido o homem ou mulher da nossa vida. Pois é. Deus escreve direito por linhas tortas, mas também escreve torto por linhas direitas. E, pelo meio, andam os nossos projectos como folha de jornal rodopiando pelo ar em dia de ventania. Deus é um brincalhão mas o seu sopro merece todo o respeito.