21 março, 2012

O QUE MORRERÁ COMIGO QUANDO EU MORRER?

                                                                          Duane Michals

Num pequeníssimo texto intitulado "A Testemunha", Borges leva-nos até uma Inglaterra do século VII ou VIII, em fase de transição do paganismo para o cristianismo. Imagina a morte de um homem, simples e vulgar, mas não um homem qualquer. Num momento da história em que, numa Europa cada vez mais cristianizada, já se ouvem tocar os sinos cristãos por todas as aldeias da velha Albion, foi ele o último homem a ter visto o rosto de Woden, deus de uma religião já moribunda e extinta, o paganismo. Homem cuja morte é,  por isso, também a  morte de rituais que não voltarão a ser praticados, de conceitos que não voltarão a ser pensados, de emoções que não voltarão a ser sentidas, de imagens que não voltarão a ser vistas. No exacto segundo em que se fecharem os dois olhos deste último homem, será também todo um  mundo de séculos que se esvairá, para todo o sempre, no gelado vazio do esquecimento. E lembra-nos o escritor que, algures na história, houve também um dia em que se fecharam os olhos da última pessoa a ter visto o rosto de Cristo, tendo, com a morte desse também último homem, morrido igualmente a própria imagem de Cristo. Também a batalha de Junín ou o amor de Helena morreram com a morte de alguém, um último homem a ter visto a batalha ou um último homem a ter visto rosto de Helena. Na história haverá um último homem cuja morte sentenciará, fatal e definitivamente, a morte de um mundo. O último homem a ter chegado pela primeira  vez, de barco, à Índia, o último homem a ter visto um baile em Versailles, o último homem a ter visto as  praias da Normandia repletas de soldados mortos.
E termina assim: "O que morrerá comigo quando eu morrer, que forma patética ou desagregável perderá o mundo?" Boa pergunta, por sinal, uma das mais interessantes mas difíceis perguntas que cada um poderá fazer a si   mesmo. Nunca devemos esquecer que, cada um, será sempre o último homem de um mundo que irá morrer com a sua própria morte.