28 março, 2012

A MULHER SEM PINTOR

Lucie Souza Cardoso

A pintura, rivalizando com Deus, criou também a mulher. Ou antes, as mulheres. Porque as mulheres de Giotto não são as mulheres de Rubens que, por sua vez, não são as santas barrocas que, por sua vez, não são as mulheres impressionistas que, por sua vez, não são as mulheres de Klimt ou de Picasso.
Na pintura, a mulher será sempre a mulher criada pelo pintor, a mulher do pintor. E sempre concebida com base numa escola, ideologia ou, já noutro sentido, com base em critérios estéticos ou formais, estejam estes sujeitos à rigidez de um cânone ou à livre imaginação individual de um pintor. Neste sentido, será sempre modelada por artifícios técnicos ou por uma sensibilidade e sentido de gosto, resultantes de uma intencionalidade artística.
Ora, quanto mais penso nisto mais me surpreendo com a beleza desta fotografia. A fotografia da mulher de um pintor. Uma beleza que não resulta de qualquer intenção, de qualquer programa, de qualquer sensibilidade, de qualquer ideologia. Uma fotografia que nasce da relação mimética entre uma máquina e uma mulher, mas que o próprio tempo, na sua cega e ignorante espontaneidade, se encarregou de depurar, embelezar, aperfeiçoar, como se fosse a criatura de um pintor. Tal como na pintura, também aqui a imagem se vai tornando cada vez mais perfeita à medida que se acentuam as suas imperfeições e afastamento da realidade pura e dura. Só que, em vez de uma deformação artística, temos uma deformação esculpida pelo próprio desgaste do tempo. Quem disse que o tempo não pode ser uma das belas-artes? O tempo, esse grande escultor.