18 março, 2012

MORRER COMO UMA CRIANÇA

                                                                   Henri Cartier-Bresson

Num estilo que mistura o filosófico e o literário, eis como Nietzsche descreve as três metamorfoses do espírito: o espírito torna-se camelo, o camelo transforma-se em leão e, finalmente, o leão transforma-se em criança.
O camelo, enquanto besta de carga, representa a submissão, a auto-anulação, o espírito do deserto. O leão, por sua vez, representa a revolta, o dizer "não", a liberdade, a transformação do "Tu deves" num "Eu quero". Finalmente, a criança. A criança dá-nos o esquecimento, a inocência, a santidade, aquele que, tendo perdido o mundo, conquista o seu próprio mundo.
O leão ainda precisa de dizer "não" porque tem de negar o camelo. O mundo da criança, pelo contrário, já não é um mundo da negação mas da criação. Dizer "não" implica viver ainda dependente daquilo a que se diz "não". Já dizer "sim" é um acto autónomo e que depende apenas de si próprio. Enquanto a negação do "não" é sempre relativa pois dizer "não" é, necessariamente, dizer "não" a qualquer coisa, a afirmação do "sim" tem um valor absoluto. Pode dizer-se sim porque sim.
Eu, com a idade, sinto-me cada vez mais assim. A dizer sim. Dispensando as convenções mas também a negação das convenções. Dispenso o que não gosto mas também a necessidade (tanto social como introspectiva) de mostrar do que gosto em oposição ao que não gosto. Gosto porque gosto, não gosto porque não gosto. Quero porque quero, não quero porque não quero. Não preciso de justificar por que gosto, do mesmo modo que não  preciso de justificar por que não gosto. Não me importo de gostar do que toda a gente gosta ainda que haja uma minoria iluminada que pensa que não se deve gostar, mas também não me importo de ser apenas eu a gostar do que mais ninguém gosta. Nem quero saber o que fica bem gostar ou o que fica bem  não gostar.
O leão, como disse, transforma o "Tu deves" num "Eu quero". Eu, que nunca quis ser camelo, tenho também cada vez menos vontade de ser leão". Cada vez mais, basta-me apenas dizer que sim.