29 março, 2012

MELANCHOLIA

                                                                             JRC

«No dia seguinte levantei-me cedo, cortei um bordão e fui para fora de portas. Queria aliviar a minha tristeza. O dia estava maravilhoso, claro, sem muito calor; um vento fresco e alegre soprava sobre a terra: restolhava e brincava, mas sem exagero, aflorando tudo sem incomodar. Vagueei muito tempo pelas colinas e florestas; não me sentia feliz (de resto, tinha saído de casa com a intenção de me entregar à melancolia).»  Ivan Turguénev, O Primeiro Amor

Eu acho fantástica esta ideia de alguém sair de casa com a clara intenção de se entregar à melancolia. Um bom ponto de partida para melhor explorar um dos sentimentos que mais me fascinam e intrigam. E também para melhor compreender a diferença entre dois sentimentos que se confundem: a tristeza e a melancolia. 
Ninguém sai de casa com a intenção de se entregar à tristeza, a não ser num contexto patológico. Fazê-lo será sempre contra-natura. A tristeza não se procura, evita-se, foge-se dela. Porém, e apesar da sua afinidade com a tristeza, faz todo o sentido procurar, activamente, a melancolia.
A tristeza é sempre transitiva. Está-se triste porque há uma razão para se estar triste. A melancolia, pelo contrário, não tem de ter uma causa. E isso, apesar de a tristeza e a melancolia serem sentimentos vizinhos na geografia da alma,  faz toda a diferença, tornando-os sentimentos bem distintos. A melancolia é uma espécie de tristeza. Mas uma tristeza evanescente, uma tristeza abstracta, uma tristeza vaga e indolor, faltando-lhe a intensidade dramática da tristeza que penetra na alma como a humidade na parede de uma casa.
Estar melancólico é, por isso, um estar triste mas sem tristeza. Daí a suavidade da melancolia poder ser intencionalmente procurada. Porque, sendo uma tristeza sem conteúdo, atenua o peso daquela. Pudesse a tristeza ser combatida com a alegria e toda a gente procuraria a alegria. Mas nem sempre uma coisa pode ser anulada pelo seu oposto. Por isso a melancolia funciona como uma tristeza amiga. Não é a alegria que tanto se deseja mas permite inocular o efeito negativo da tristeza.
A melancolia, enquanto exercício espontâneo da alma, joga muitas vezes com uma esteticização da tristeza: a projecção dos conteúdos internos da tristeza em elementos exteriores: paisagens, ambientes, referências meteorológicas, objectos, silêncios. Através da transposição de um interior dorido para um exterior indutor de sensações agradáveis, torna-se possível  uma formalização da tristeza, uma depuração e, consequentemente, um alívio. Em vez de concentrada na sua própria dor, a alma humana sublima essa dor na paisagem, no nevoeiro, na chuva, nas folhas amarelas espalhadas pelo chão do jardim, na serenidade de um mar infinito. Em suma, o que não passava de uma dor em estado puro e, por isso, causa de grande sofrimento, passa a ser vivido de um modo contemplativo e exterior ao sujeito. Como se em vez de ser um actor da sua própria tristeza, o sujeito triste passasse a ser, exteriormente, um espectador dessa sua tristeza exposta em diversos palcos do mundo. A alma continua triste mas passa a ver a tristeza do lado de fora. E o que antes eram chagas, lágrimas e esgares de dor é transformado num sereno silêncio de estátuas de jardim que, sendo já de pedra, sentem  apenas vagamente os sofridos dias em que foram carne, sangue e nervos.