14 março, 2012

KODAKLESS

                                                               Henri Cartier-Bresson | Matisse


Quase no final de Nada a Temer (Julian Barnes), o narrador recorda uma traquinice de juventude: esconder um gravador debaixo da mesa, à hora de jantar, tentando com isso provar que, durante esses momentos familiares, nunca acontecia nada de verdadeiramente interessante.
Tento imaginar o que se ouviria na gravação: sons de cadeiras a arrastarem-se, louças, talheres, água ou vinho a serem despejados nos copos, frases curtas, diálogos sobre quotidianas banalidades que se esvaem na espuma dos dias, silêncios entre as frases. O que poderá então significar não se dizer nada de verdadeiramente interessante durante o jantar? Que não se teve uma discussão filosófica? Que não se falou sobre política internacional? Ou sobre pintura?  Que não se recorreu a Freud para analisar o vizinho da frente? Ou, noutro registo, que não houve momentos inesquecíveis para mais tarde recordar?
Generalizando, sou levado a pensar no que terá de verdadeiramente interessante a vida das pessoas. Não me refiro aos kodak "momentos históricos" pelos quais todas passam, mas às suas vidas em tempo real,  percepcionadas numa escala temporalmente milimétrica: os almoços, os jantares, os acordares, as idas e vindas para o trabalho, o próprio trabalho, as compras,  as tarefas domésticas, os momentos de repouso, a ida ao café. Enfim, praticamente tudo o que preenche os dias, as semanas, os meses, os anos. Afinal de contas, será a vida das pessoas interessante ou terá poucos motivos de interesse? Serão os registos de um gravador ou de uma câmara vídeo que guardam momentos ínfimos que rebentam como pequenas bolhas, uma prova de uma vida vazia, sem sabor, sem interesse?
A vida não é um filme de duas horas. Num filme de duas horas, há uma concentração narrativa ou dramática que põe de lado tudo o que seja supérfluo na vida de uma pessoa. Nos filmes vemos histórias de amor, drama, comédia, terror ou guerra. O filme relata sempre uma experiência de vida reduzida à sua essência. Se assim não fosse o filme tornar-se-ia insuportável, levando o espectador a bocejar ao fim de 5 minutos.
Acontece que muita gente acha a sua vida pouco emocionante ou desinteressante porque muito longe do que vêem no cinema. Ou muito longe do que vêem nas revistas cor de rosa, que sugerem vidas cujos milimétricos minutos são permanentemente vibrantes. Acontece, porém, que a vida não é assim. A vida, e ainda bem, é também feita de pequenos silêncios, de momentos mortos, de pequenos gestos que se tornam rapidamente invisíveis, mas que acabam por formar a substância de que é feita a vida.
Por muito boa que seja a nossa memória, grande parte do que fazemos ou dizemos fica morto na inconsciente escuridão do passado. Há os "momentos históricos", é verdade. Mas esses momentos são ilhas. O que conta são os outros, os que ocupam grande parte dos nossos dias, os que não têm de ser especialmente interessantes ou emocionantes nos pequenos gestos do dia a dia. Não somos actores de cinema num filme de duas horas, nem bonecos de capa de revista, desenhando um sorriso perfeito para a eternidade. É nos bastidores que tudo se decide.  Porque é lá que verdadeiramente vivemos e é lá que temos de aprender a viver.