13 março, 2012

EROSÃO

                                                                    Leon Levinstein

Embora não lhe faltem concorrentes, Richard Nixon ficará eternamente para a história como um pulha, um sacana da pior espécie, um homem frívolo, insensível, calculista que se movimentou no lado escuro da política. É por isso que notícias como esta nunca deixam de surpreender.
Ficaremos sempre surpreendidos com a ideia de um Tricky Dicky lânguido, sentimental, apaixonado, que valoriza acima de tudo o amor. Com um Nixon que escreve every  day and every night I want to see you and be with you. Yet I have no feeling of selfish ownership or jealousy, ou que escreve let's go for a long ride Sunday; let's go to the mountains weekends; let's read books in front of fires; most of all, let's really grow together and find happiness we know is ours. Estaremos perante uma confusão de identidades? Será que o homem que escreve estas palavras à sua irish gypsy é o mesmo que conhecemos da história e da política? Devemos ver estas diferentes identidades numa perspectiva sincrónica ou diacrónica?
Em A Loucura da Normalidade - O Realismo como Doença: Uma Teoria Fundamental da Destrutividade Humana (Assírio&Alvim), Arno Gruen afirma que um eu que está organizado em função do princípio do poder vai sempre insistir em comportar-se de forma responsável em conformidade com a respectiva ideologia política. E mais à frente: a lição do nazismo não é só uma lição histórica sobre política de poder, ganância, a mania das grandezas e o Mal; também ensina do que os homens e mulheres são capazes quando estão desligados do seu interior.
Há tempos, no Porto, assisti a uma conferência/debate organizada pelo Bloco de Esquerda, cujo objectivo seria reflectir sobre a responsabilidade que podemos imputar aos políticos sobre os mais diversos problemas que afectam as sociedades contemporâneas. Dizia um dos conferencistas, historiador e homem de esquerda, que em períodos de crise as pessoas tendem muitas vezes a refugiar-se em contextos que nada têm que ver com a política ou a economia. Ou seja, havendo uma desvalorização da consciência política, sendo transferida para a vida pessoal, o amor, os afectos, a amizade, etc.
Esta constatação, presumivelmente crítica, vinda de um homem de esquerda, é perfeitamente normal. A esquerda sempre hiper-valorizou a consciência política como condição necessária para a consolidação de um espírito engagé, transformador, criticamente revolucionário. Aliás, são mais que muitos os exemplos de revolucionários cuja vidas pessoais, sentimentais, afectivas foram relegadas para um plano inferior ou até inexistente. Nos anos 70, em Portugal, militantes de partidos da extrema-esquerda não podiam assumir ou desvalorizar essas vidas para não caírem em tentações burguesas e reaccionárias. Mas será mesmo assim?
Jakob Wassermann (O Caso Mauritius) diz estar convencido de que o bem e o mal não se decidem na comunicação das pessoas entre elas, mas exclusivamente na comunicação de uma pessoa consigo própria. Posso, admito, estar a dizer um grande disparate. Mas, na verdade, não me choca pensar que se Nixon mantivesse ao longo de toda a vida a boa relação com Eros que mostrou ter durante os seus anos de juventude, talvez o político que  veio um dia a ser tivesse outra relação com o mundo. A relação com o exterior começa precisamente no interior. E o interior de Nixon, cada vez mais longe de Eros, foi-se tornando cada vez mais erodido. E não foi apenas ele e a sua irish gypsy que perderam com isso. Foi o seu país e o mundo inteiro.