17 março, 2012

DOS CONSERVADORES

                                                                         Hank Walker

[...] havia aristocratas com dez anos de idade, de olhos azuis e ar fatigado, que olhavam para o vazio como se os seus antepassados já tivessem visto tudo em lugar deles [...] Sándor Márai, As Velas Ardem até ao Fim

a) Há quem olhe para o vazio como se os seus antepassados já tivessem visto tudo em lugar deles. Isso pode acontecer em sociedades fechadas, excessivamente ritualizadas e esmagadas pelo peso de uma tradição que, sendo muitas vezes arbitrária, não traz qualquer benefício a quem a ela se submete.
b) Mas também pode haver quem olhe para o vazio porque nada vê do que os seus antepassados viram antes deles. A ideia de começar qualquer coisa de novo apenas porque, de um modo obstinado, se acredita que se pode fazer ainda melhor o que o passado já provou ser bom, é um modo ainda pior de olhar para o vazio. Actualmente, e num futuro próximo, é este vazio que mais devemos temer e, consequentemente, denunciar. We have no more beginnings? Haverá quem pense existirem sempre começos, novas experimentações, novos vazios por preencher. Vazios que podem excitar os olhos de muita gente que precisa de permanente excitação como os peixes de boca sempre aberta para comerem. Mas  nada que se compare à visão nítida de quem vira a cabeça para o que de bom já foi feito e pensado.