27 março, 2012

DICIONÁRIO

                                                    Amadeo de Souza Cardoso e Lucie Souza Cardoso

Ando a ler, pela segunda vez, O Primeiro Amor, um belíssimo romance de Ivan Turguenev, um dos meus escritores preferidos. Não é por nenhuma razão especial que o leio de novo. Teria até mais vontade de reler , por exemplo, Pais e Filhos ou Fumo. Acontece que li O Primeiro Amor em inglês e agora fiquei vontade de o reler na minha língua materna. É a primeira vez que tal me acontece e está a ser uma experiência psicologicamente muito interessante.
Eu estou a ler precisamente o que já tinha lido antes. A chegada dos vizinhos, o encontro entre um jovem e aquela que será a sua primeira paixão, as brincadeiras, a densidade psicológica do amor que surge pela primeira vez na sua vida. Portanto, nada do que leio é novidade, sendo, literalmente, uma releitura. Porém, por outro lado, é como se fosse um livro completamente diferente. Mas não é o livro que é completamente diferente. Eu é que sou completamente diferente, conforme o leia em inglês ou em português. Porque uma coisa são as referências objectivas do livro, outra coisa é o modo como as percepciono na minha consciência através de duas línguas diferentes.
Descontando alguns pormenores das traduções, ler «And the flashes within me died down too. I felt weary and at peace, but the image of Zinaida still hovered triumphant over my soul» não é diferente de ler «E os relâmpagos dentro de mim também desapareceram. Senti um grande silêncio e um grande cansaço... a imagem de Zinaída, porém, continuava a voar, triunfante, sobre a minha alma». Mas é diferente, por muito claras que sejam as duas frases. Porque são registos diferentes, diferentes familiaridades, diferentes impactos, diferentes ressonâncias, diferentes sonoridades, diferentes contextos culturais e psicológicos.
Por vezes, com as pessoas, passa-se a mesma coisa quando comunicam umas com as outras. Pensamos que pensamos nas mesmas coisas só porque as referências objectivas do discurso parecem as mesmas. Só que, muitas vezes, embora parecendo que nos entendemos, estamos a falar códigos diferentes. Como se fossem línguas diferentes. Porque uma coisa é a língua que falamos, outra coisa diferente é a consciência da pessoa que usa essa língua. Enquanto a língua é um código comum, cada consciência é um mundo que, embora não seja de todo impenetrável pela luz de outra consciência, tem sempre zonas de sombra às quais nunca é possível chegar. O entendimento entre duas pessoas passará sempre, não por conseguirem falar a mesma língua, mas  por saberem usar um bom dicionário. Eles existem, basta querer e saber procurá-los.