22 fevereiro, 2012

STRUGGLE FOR LIFE

                                                                          JRC

Chego a casa, pego em Nada a Temer, de Julian Barnes, e sou de imediato assediado pelo problema da morte. O livro, que não ando a ler, mas que folheei ao acaso, fala de morte. Na passagem que por mero acaso apanhei, o escritor recorda o que pediu Chostakovitch, músico obcecado com a morte, a um dos membros do quarteto Beethoven, quando tocassem o adagio do Quarteto nº15: «Toque de modo a que as moscas caiam mortas em pleno voo».
Leio isto e vou até à sala, pego na caixa dos quartetos e retiro o disco para ouvir o adagio. Morte? Sim, morte. Está lá a morte. Acontece que oiço isto depois de um passeio de carro pelo campo num ribatejano dia de sol, depois de ver giestas caminhando já para o seu esplendor, acácias em flor, cegonhas, cavalos, touros e ovelhas e árvores, árvores, árvores, árvores. 
Queria o compositor russo que até as moscas caíssem em pleno voo durante a execução do belíssimo e igualmente lúgubre adagio do quarteto nº15.  Eu oiço o adágio mas só consigo ouvir música que me prende à vida.