02 fevereiro, 2012

SABEDORIA SEM GRALHAS

                                                                    Bert Teunissen

ÁSTROV- Não há nada de novo? 
VÓINITSKI- Nada. É tudo velho. Estou na mesma, ou talvez pior, porque fiquei preguiçoso, não faço nada, só resmungo como um velho caquético. A velha gralha, a minha maman, ainda balbucia alguma coisa sobre a emancipação feminina; olha para o túmulo com um olho, com o outro procura nos seus livros sábios a aurora da vida nova. Tchékov, O Tio Vânia, Acto I

Há duas possibilidades. Ou se desiste, como faz Vóinitski, ou não se desiste, como é o caso da sua mãe, ainda que um dos seus olhos não possa deixar de antever o fim do filme. Olhar o futuro como aurora de uma vida nova tem tanto de inevitável como de ilusório. Mas Vóinitski estará provavelmente errado quando fala depreciativamente em "balbuciar" a respeito dessas sabedoria. Talvez, quem sabe, seja mesmo essa a verdadeira sabedoria. Não a sabedoria da gralha, mas a sabedoria de quem desaprendeu. Quando a antiga gralha aprende sabiamente a balbuciar, embora percebendo, pelo canto do olho, o fim de tudo, percebe também que nunca é tarde demais para a sabedoria. Aprender a desaprender, pode ser para isso que servem os livros sábios. Para morrer feliz.