18 fevereiro, 2012

O APEADEIRO

Joseph Koudelka| Portugal [1976]

No Monte dos Vendavais há partes que mostram bem o impacto das estações do ano na vida das pessoas. Por exemplo, a chegada da Primavera no Yorkshire, após meses em que a natureza esteve adormecida e coberta por um manto de neve: - São as primeiras flores do monte! – exclamou. Diz-me Edgar, o vento não sopra agora do sul e a neve não está quase derretida? - A neve já derreteu toda, minha querida. O céu é azul, as cotovias cantam e os arroios correm cheios”. Agora, quando chega novamente o Outono: “No dia seguinte, dificilmente se diria que havíamos tido três semanas de Verão: as buganvílias e os crocos vergavam-se agora às ventanias de Inverno; calaram-se as cotovias, amareleceram e caíram as folhas das árvores”.
É difícil para um português compreender este ciclo abrupto das estações e como o mundo se altera através delas. Gaston Bachelard, em La Poétique de l’Espace, diz mesmo que a neve “apaga o mundo exterior”, realidade incompreensível para um português.
É verdade que existem estações em Portugal. Não se anda de calções no Inverno e de cachecol no Verão. Mas a mudança é de tal modo subtil que, neste caso, seria um russo, um sueco ou um escocês a ter dificuldade em compreender. 
Tal como no Monte dos Vendavais há exemplos que mostram a importância das estações num europeu, nos Maias há exemplos que ajudam a perceber a não importância das estações num português. Veja-se este: “Carlos encontrava quase sempre o avô já na sala de jantar, acabando de percorrer algum jornal junto ao fogão, onde a tépida suavidade daquele fim de Outono não permitia acender o lume, mas verdejando todo de plantas de estufa”. E este: “Por aquele sol macio e morno de um fim de Outono português, o Ega (…) trazia um sumptuosa peliça de príncipe russo, agasalho de trenó e de neve e pondo-lhe em torno do pescoço esganiçado e dos pulsos de tísico uma rica e fofa espessura de peles de marta”. Ega bem quer ser europeu mas, sem o frio da Europa, torna-se risível. O macio Outono da Lisboa queirosiana está muito longe do agreste Outono do Yorkshire e das estepes russas.
Mas vamos agora ao mais importante. Nos Maias há uma passagem de natureza meteorológica que só por si define Portugal. É quando Pedro da Maia e Maria Monforte andam pela buliçosa e cosmopolita Paris. Ei-la: “E quando ela apareceu grávida, ansiou por a tirar daquele Paris batalhador e fascinante, vir abrigá-la na pacata Lisboa adormecida ao sol”.
Pacata Lisboa adormecida ao sol. Eu li isto e senti que tinha acabado de ter uma visão. Deus do céu, é isto mesmo. Portugal é um país adormecido ao sol. Eça fala de Lisboa. Mas, na verdade, é de Portugal que se trata. Afonso da Maia viveu o seu exílio liberal em Inglaterra. Maria Monforte engravida de Pedro da Maia em Paris. O fado de Carlos da Maia foi ter vindo nascer num país adormecido ao sol. Portugal está todinho, inteirinho, nesta referência meteorológica. Um país lento, pacato, indefinido e ausente. Um gato sonolento que se espreguiça numa janela de Alfama.
Somos latinos mas não temos a fogosidade dos italianos nem o salero dos espanhóis. Europeus mas sem o método dos alemães, a disciplina dos suíços, o sentido de responsabilidade dos nórdicos, o espírito empreendedor dos ingleses. Rimos, mas não com a exuberância dos irlandeses. Choramos, mas não como os muçulmanos. Católicos, mas nada que se compare com os brasileiros. Bebemos, mas parecemos uns meninos de coro ao pé dos eslavos. Gostamos de futebol mas vemos os jogos no estádio como se estivéssemos a ver um programa do professor José Hermano Saraiva. Lemos revistas cor-de-rosa cheias de aristocracia parola mas matámos um rei e mandámos o último embora sem qualquer peso na consciência. Tivemos um fascismo que não foi bem fascismo e temos uma democracia moderna num país que lambuza os dedos com a TV Guia.
É assim Portugal. Um país adormecido ao sol: aconchegadinho, quentinho, com a cabeça a tombar lentamente para a frente. Portugal não tem estações. Portugal é um apeadeiro.