23 fevereiro, 2012

A INCLINAÇÃO


Aparentemente, este retrato dos duques de Osuna e de seus filhos, pintado por Goya em 1788, surge como um convencional e burguês retrato de família. Mas não é. Há aqui uma graciosidade, uma harmonia e inocência quase infantil. Diria mesmo, quase feérica. Claro que ajuda saber que o pintor era amigo do duque de Osuna. Mas nem seria preciso. Quem pintou a família desta maneira teria que forçosamente gostar muito dos retratados. Mais até do que a cor e os rostos pueris e inocentes de todos eles, o que mais me atrai neste retrato, o seu verdadeiro centro de gravidade que suga o meu olhar, é a ligeira e subtil inclinação do corpo do duque. Longe das hirtas e hieráticas poses clássicas. O duque não está inclinado por estar inclinado durante a realização deste trabalho. Não se trata de uma inclinação aleatória. Esta inclinação não é uma simples posição corporal mas toda uma psicologia e filosofia de vida. Mais ainda: está inclinado, para se poder realçar a sua humanidade e carácter moral. E nós gostamos mais dele por estar inclinado. A rigidez fica para os deuses ou para aqueles que, pelos cargos importantes, o dinheiro ou a fama, se acham perto dos deuses e que vivem ensimesmados no seu próprio mundo frio e distante. Frio e distante, portanto, desejavelmente bem longe de um mundo onde apeteça viver.  Pelo contrário, quem desdenharia tomar um chá com os duques de Osuna e fazer umas cabriolices com aquela pequenada?