13 fevereiro, 2012

DOS CONSERVADORES

                                                                   Julia Margaret Cameron

Sempre achei o acordo ortográfico um disparate político e cultural. Mas não faço disso uma questão de vida ou de morte. Se coisas como o acordo ortográfico fossem uma questão de vida ou de morte, há muito que me teria suicidado. A vida continua, quero lá saber. Mas irei desrespeitá-lo. Pessoalmente, irei continuar a escrever de acordo com a velha ortografia e na escola só passarei a escrever "aspeto" ou "veem" quando for penalizado por não o fazer.
Não é por razões técnicas. Disso não entendo nada, nem me interessa, não sou linguista e deixo a discussão para as comadres. Prefiro a simplicidade à complexidade a aqui não é excepção. Sou contra o acordo porque me limito ao velho princípio conservador segundo o qual uma coisa só deve ser mudada se houver claras vantagens em fazê-lo. E em muitas situações haverá. Portanto,  a mudança, por si só, não é um mal. Por exemplo, a substituição da máquina de escrever pelo computador foi bastante benéfica. E ainda que possamos alimentar uma visão romântica da velha máquina de escrever, é evidente que se trata apenas de um simpático sentimento de nostalgia.
Sei que daqui a meia dúzia de anos já não irei pensar em escrever "aspecto" ou "vêem" do mesmo modo que os meus pais muito naturalmente deixaram de escrever "mãi" ou "regimen" como li em cartas escritas por eles há muitos anos. Certo. Mas mudar  a ortografia para quê? Porque há pessoas que vivem da mudança, pessoas que são pagas para pensarem como mudar, como se houvesse implicitamente uma indústria da mudança e  políticos que, com tais mudanças, sentem que irão sobreviver para além da morte das suas efémeras vidas políticas. No caso do acordo ortográfico trata-se de uma mudança estúpida e desnecessária, uma concessão aos novos analfabetos que saem das nossas escolas depois de 12 anos de obrigatória indigência mental. Lamentável.