08 fevereiro, 2012

CULTURA DA VERBORREIA

                                                                              Nadar

Há hoje cada vez mais garotos incapazes de estarem calados. E quanto mais novos, pior. Seja numa aula, seja a ver um filme, como ontem aconteceu durante uma aula de substituição. Se pusessem garotos a ver o Teorema de Pasolini, compreendia que depois de cinco minutos de filme reagissem como macacos a quem distribuíssem quilos de amendoins. Mas como explicar que, perante um normalíssimo filme de aventuras, os garotos não consigam estar calados? Esta é uma experiência cada vez mais comum no quotidiano de um professor. Os garotos não se calam, não se calam, não se calam. Chega a ser um pesadelo. Por que razão acontece cada vez mais este pesadelo? Uma explicação pode ser a incontinência verbal e comunicacional que infecta a vida quotidiana. Incontinência que se manifesta na ligação em tempo real entre o mundo mental e o mundo verbal: a pessoa pensa e tem de imediato comunicar o que pensa. Ou numa omnisciência comunicacional, por exemplo, o filho telefonar à mãe a dizer que está a chegar a casa....já dentro do prédio. Mas também na cultura do on line, seja no Facebook ou outras redes sociais ou no Messenger. Numa absoluta exteriorização do pensamento e de todo o universo mental do indivíduo. Penso, logo digo. Mas que também pode ser traduzido num "Digo, logo existo". Não existo porque penso, existo porque digo. Como se os mecanismos do pensamento e das emoções tenham de ser forçosamente legitimados e autenticados pela comunicação em tempo real. Se estou a ver um filme e penso qualquer coisa a respeito de uma cena tenho de o comunicar de imediato, impedindo-me, deste modo, de ver o filme calado. 
Hoje é apenas um pesadelo porque vivemos ainda numa fase de transformação. No futuro, pesadelo será estar calado. Já cá não estarei para ouvir.