09 fevereiro, 2012

CULPADO!


Trata-se de um cartaz de propaganda nazi, defendendo a eutanásia de pessoas deficientes. Está lá escrito o seguinte: "Esta pessoa, sofrendo de anomalias hereditárias, custa à comunidade 60 000 marcos. Compatriota, este dinheiro também é seu".
Quase sem darmos por isso, este cartaz ganhou uma preocupante actualidade em Portugal. Não, não há sinais de qualquer secreta agenda política para abater portugueses indesejáveis. Mas, de repente, parece que passámos todos a ser pessoas indesejáveis, pessoas que só servem para atrapalhar o eficaz funcionamento de uma máquina sagrada. De repente, um funcionário público passou a sentir culpa por receber o seu vencimento por um mês de trabalho pois é dinheiro que sai da máquina. De repente, um português passa a sentir-se culpado por adoecer, pois sempre que faz análises, uma ecografia ou é interndo num hospital está a extorquir dinheiro da máquina. Ou sente-se culpado por ter filhos a estudar, pois cada estudante custa anualmente X euros à máquina que se deseja implacável e bem oleada. Ou sente-se culpado por estar desempregado e, por causa disso, o estado tem que lhe matar a fome. Ou um idoso pensionista ou reformado, depois de uma vida  inteira a trabalhar,  que se sente culpado por estar dependente da piedade da vaca mecânica.
De repente, ser português passou a ser sinónimo de culpado. Porque, de repente, a ideia de sociedade deixou de existir, sendo transferida para a ideia de Estado. A máquina. A máquina que se quer sem mácula. O Estado existe em função da sociedade mas, de repente, a sociedade passou a ser um fardo insuportável para o Estado. O ideal seria mesmo existir um Estado sem sociedade. Um Estado sem escolas, hospitais, estradas, casas, famílias, pessoas, crianças e idosos isentos de taxas. Sei lá, não o Estado hegeliano mas o Estado como uma ideia platónica, uma simples forma, um esquema. E um Estado tanto mais perfeito quanto mais isento de vida concreta e humana.
Tivemos 2500 anos marcados por um modelo ao qual devemos quase tudo, como invoca aqui o Jorge. Talvez estejamos a abandonar esse modelo para entrarmos no modelo da contabilidade. A contabilidade é louvável e todos nós, nas nossas vidas domésticas, devemos ser contabilistas. Mas a contabilidade sem a política e a filosofia conduz a um pesadelo muito maior do que o do cartaz nazi. Desta vez não há 60 000 culpados. Somos todos culpados apenas porque existimos.