28 fevereiro, 2012

CAVALO DE TRÓIA


Há dias, na qualidade de professor substituto, estive numa sala de aula a ver o filme Tróia. Foi, confesso, uma experiência desconfortável.
Tendo lido a Ilíada, nomes como Aquiles, Agamémnon, Heitor ou Príamo, não são, para mim, entidades físicas ou sensíveis, ainda que correspondam a uma ordem narrativa vincadamente física ou sensível. De facto, Aquiles, zangado, vagueando por uma praia de Tróia, é Aquiles zangado, vagueando por uma praia de Tróia. Porém, mais do que pessoas cujas identidades são empiricamente configuradas através de um conjunto de qualidades físicas (rosto, voz, etc.), aquelas personagens funcionam na minha consciência como  meras abstracções morais ou psicológicas. Direi mesmo, arquétipos que se formam como conceitos abstractos. Se penso em Heitor não penso especificamente num homem mas num modelo de humanidade. E penso em Agamémnon como penso numa ideia abstracta no plano da ética ou num simples perfil psicológico.
Daí ter visto o filme com a permanente sensação de uma queda. De uma queda no plano áspero e confuso do sensível. Ter visto Aquiles metamorfoseado em Brad Pitt ou Helena num manequim de uma daquelas revistas que excitam adolescentes com borbulhas na cara, foi, por isso, tão perturbador como se descobríssemos agora o verdadeiro rosto de Jesus Cristo ou Maomé, deixando, por isso, de ser puros modelos ou puras referências, diluindo-se as suas puras identidades em dois rostos e outras referências fisionómicas ou anatómicas. Mesmo referências empíricas que surgem no texto, como praia, espada, vento, poeira ou barco, num filme, acabam por se tornar numa espécie de expressão perversa de um mundo cuja pureza literária morre, ali, perante os nossos olhos, nas praias de Tróia, como se de um nefasto vírus se tratasse.