20 janeiro, 2012

PARA ALÉM DE WATERLOO


Voltei a ler Camilo. Ler Camilo, com a imprescindível ajuda do dicionário, é uma festa da língua portuguesa, uma homenagem à vernacular elegância desta língua agora tão escorraçada, um português que tem tanto de satírico,  mordaz e inteligente como de subterrâneo, granítico e nocturno. Se Eça é o Chiado e uma ainda hoje vislumbrada mediterrânica brancura lisboeta, Camilo é a alma de um Portugal morto e jazendo, envolvido por húmidas heras, nas  umbrosas ruínas de um século XIX neto de um atávico avô que teima em resistir. Se em Eça já se sente o cheiro do gás, em Camilo, os olhos ainda ardem, fatigados pela bruxuleante luz de uma pobre candeia que não consegue iludir a escuridão da noite antiga, vinda do fundo dos tempos. Mas não é isso que me traz agora aqui.
Eu e o meu amigo Jorge temos, há muito, um velho contencioso. Eu sou mais dado ao fresco nevoeiro que envolve os verdes campos da velha Albion, cuja lisura é, aqui ou ali, interrompida por um velho palácio, rodeados de belos lagos e árvores centenárias. E como isto está tudo ligado, estou muito longe de me sentir indiferente ao aristocrático cabotinismo de um Churchill nascido em berço de oiro no palácio de Blenheim, onde já tive o prazer de comer uns belos scones bem molhadinhos por um chá apaziguador em dia de melancólica chuva miudinha. Enfim, sou um pobre professor sem ter onde cair morto mas devo ter sido aristocrata noutra vida ou, quem sabe, um simples pajem isabelino.
Ele, o Jorge, por sua vez, é mais dado aos encantadores eflúvios do Sena, mais atraído pelo urbano burburinho de Saint Germain e por esplanadas outrora frequentadas por revolucionários que fizeram da língua francesa uma espécie de orwelliana Novilíngua, tão afastada já das centenárias LibertésEgalités e Fraternités que tantas cabeças ajeitaram nas revolucionárias guilhotinas de um filme de terror. Enfim, eu gosto da quente e confortável lareira, iluminando a suave penumbra de um  pub algures perdido numa obscura aldeia igualmente perdida no mapa, ele prefere o iluminismo do boulevard, abertas e longas avenidas rumo a um futuro radioso.
Mas nada como um bom pedaço de uma tão portuguesa prosa camiliana para fazermos as pazes:

«Ricardo esperava-a na sala, correndo o teclado do piano, com a sem-cerimónia dum visitante habitual, beijando-a ao estilo da França, coisa que ele vira fazer a quatro ou cinco viajantes distintos do Porto, que tinham conhecido, em Paris, a «mesa-redonda» dos hotéis onde estiveram».

E logo a seguir:

«Aí vão à pressa dois traços deste Ricardo de Sá. É um bacharel formado em direito, filho doutro bacharel que faz requerimentos, enquanto o filho, reservado para a magistratura, destino em que se dispensa vocação, faz cartas de namoro com letra inglesa, e timbra em comprar no Moré os mais anilados enveloppes, e o melhor papel-cetim de fímbria doirada»*.

Eis,  pois, a França e a Inglaterra de mãos dadas graças a  um bacharel  português, igualmente seduzido pelos dois lados do Canal da Mancha. Talvez Agostinho da Silva razão com a história do luso universalismo e ecumenismo do V Império.

 * O Que Fazem Mulheres