07 janeiro, 2012

NEM OFICIAIS NEM CAVALHEIROS


Entre um homem e uma mulher nunca poderá existir aquilo a que se convencionou chamar um "acordo de cavalheiros". E não o digo por causa da etimologia, pela ligação de cavalheiro a "cavaleiro" ou "cavalaria", a um ideal de nobreza cuja base é essencialmente masculina. Portanto, se afirmo não ser tal acordo possível, nada tem que ver com a essência masculina de um "cavalheiro" em oposição à essência feminina de "dama". 
O que é um "acordo de cavalheiros"? Trata-se de um acordo no qual, por motivo de honra, educação ou  probidade moral, dois homens se submetem a um código por ambos aceite e partilhado. No fundo, trata-se de um sistema, como a língua ou outra estrutura afim, no qual as vontades individuais se diluem. Nós não falamos português porque desejamos ou decidimos falar português, nós falamos português porque não nos imaginamos a falar outra língua devido ao modo como essa língua está impregnada no nosso "código genético". Do mesmo modo, dois cavalheiros, em virtude da sua educação, do seu carácter, da sua elevação moral, decidem chegar a acordo sobre um determinado assunto, sem necessitarem de papéis, formalizações jurídicas, testemunhas. 
Ora, entre um homem e uma mulher nunca tal poderá acontecer. Não significa isto que não possa haver acordos entre homens e mulheres. Claro que pode, homens e mulheres passam as suas vidas a chegarem a acordo entre si. Acontece, porém, que nunca poderá ser um acordo de cavalheiros. Porquê? Porque num acordo entre um homem e uma mulher nunca haverá a diluição dos seus eus num sistema global que os transcende. Os eus masculinos diluem-se nesse sistema. O eu masculino e o eu feminino, por sua vez, quando frente a frente, serão sempre irredutíveis a qualquer sistema. Um homem, perante uma mulher, será sempre um homem perante uma mulher, uma mulher, perante um homem, será sempre uma mulher perante um homem. Num acordo de cavalheiros, contrariamente ao que se pode julgar, a masculinidade é relegada para segundo plano, sendo substituída pelo ideal de "cavalheirismo". Um cavalheiro é um homem mas um homem não tem de ser necessariamente um cavalheiro. Quando um homem se torna cavalheiro e chega a acordo com outro cavalheiro, o "cavalheirismo" do acordo a que ambos chegam, sobrepõe-se à natural masculinidade de ambos, como se fosse uma segunda natureza.
Entre um homem e uma mulher nunca tal acontecerá. Estaremos sempre no domínio das vontades individuais, da conflitualidade inerente ao dualismo dos géneros e, contrariamente à previsibilidade e mecanicismo do sistema, estaremos inevitavelmente no domínio da imprevisibilidade, do capricho, das arbitrárias  e obscuras movimentações da biologia.