18 janeiro, 2012

MUNDO DE PAPEL


Em 1915, um grupo de jovens toma chá, ou o pequeno-almoço, num daqueles raros dias ingleses em que o ar se torna livre para nele se poder estar. O ar deve estar, pois, ameno, e tendo como música de fundo o verde chilrear dos pássaros. A rapariga do fundo ri. Dá para entender ser ela que fala enquanto os outros a ouvem atentamente. Não há grande entusiasmo mas vislumbra-se uma serenidade primaveril.
Há, porém, duas marcas terríveis nesta foto, como se fossem duas profecias pairando sobre as suas cabeças. Por um lado, a desfocagem das árvores (árvores que, na realidade, naquele espaço e naquele tempo, não estão desfocadas), dando à cena um sentimento de vertigem e perdição. Por outro, as mesmas árvores desfocadas que começam a surgir corroídas pelo envelhecimento da própria fotografia, vítima da implacável ferocidade do tempo. Como se esta fotografia tivesse ao mesmo tempo a pretensão de registar o momento para a eternidade mas, sendo de papel, não nos deixasse esquecer o carácter efémero de toda a experiência humana. Tão frágil e delicada como uma árvore.