25 janeiro, 2012

THE RAIN IN SPAIN STAYS MAINLY IN THE PLAIN

                                                                   Henri Cartier-Bresson

Uma das coisas que mais me atraem na escola salazarista é a sua humildade. A escola salazarista não pretendia tornar os alunos inteligentes mas apenas ensinar a ler, escrever e contar, assim como um conjunto de conhecimentos básicos considerados essenciais. No entanto, e de um modo aparentemente paradoxal, a educação salazarista fazia bem mais pelas crianças e jovens do que a actual educação moderna e democrática, obcecada pela inteligência, pelas competências, pela autonomia e auto-estima dos alunos transformados em livres-pensadores de pacotilha. Vá-se lá saber como, nos decrépitos bancos da escola salazarista deram os primeiros passos todos aqueles que vieram a ser grandes professores, cientistas, médicos, engenheiros, arquitectos, advogados, historiadores, escritores e pintores.
A educação salazarista fazia dos alunos macaquinhos durante um período de desenvolvimento em que não passamos mesmo de uns macaquinhos. Eu próprio fui um desses macaquinhos durante 13 anos da minha existência e devo parte do que hoje sou (que, ainda assim, admito não ser grande coisa) a esses 13 anos em que fui obrigado a memorizar e mecanizar informação. Hoje já não serei tão macaquinho como fui outrora mas foi preciso sê-lo durante muito tempo para me dar ao luxo de poder deixar de o ser.
A insuportável e nefasta falta de humildade da educação democrática revela-se igualmente na ambição totalitária da linguagem, na obsessão pela perfeição científica das suas metas e no horror ao elitismo e à superioridade aristocrática. Já não se querem crianças simplesmente bem educadas mas republicanamente educadas para a cidadania. Os nobres e honrados trabalhos manuais transformaram-se em educação tecnológica, uma espécie de resíduo estalinista incubado no inconsciente colectivo de muitos pedagogos actuais, amantes de uma alucinada modernidade. Os professores transformaram-se em colaboradores de uma comunidade educativa, fruto de um plebeu horror à hierarquia, autoridade e hierática ordem, sempre a trabalhar como mesquinhas formigas, herdeiros perfumados e de cara lavada do velho operário vitoriano de Dickens. As bibliotecas deixaram de ser espaços sagrados para ler e para o silêncio, transformados em modernos centros de recursos para cultivar a ruidosa tagarelice da espontaneidade e prazer da cultura democrática, onde toda a gente tem direito à opinião, macaquinhos orgulhosos da sua vacuidade circense, numa idade em que já deviam ter deixado de o ser.