16 janeiro, 2012

DECORAR

                                                                  Gertrude Käsebier

Alucinados com o pensamento livre, seduzidos pela reflexão, problematização, inquirição, discussão, pelo cacofónico folclore do debate, fascinados pela liberdade da subjectividade e da opinião, desprezámos o decorar, o saber de cor, o saber pelo coração. Deixámos de decorar poemas para passarmos a analisar poemas porque a análise é um fim em sim mesmo, um ideal de vida, um sinal de inteligência, e a inteligência, como toda a gente sabe, é uma coisa muitíssimo importante.
Decorar um poema é engolir um poema, absorvê-lo na pele para depois sair ao ritmo das mecânicas batidelas do coração. Não se trata de conhecer um poema porque o poema faz pensar e reflectir mas conhecer um poema como se conhece um filho ou um sabor na boca. Nem é saber porque se gosta, uma vez que gostar é como um rio que flui para o mar sem saber porquê.
Reflectir, problematizar, inquirir, discutir, analisar, não é intrinsecamente mau. Nós somos máquinas pensantes e não podemos deixar de pensar. Mas pensar será sempre o resultado visível de uma falha, de uma ignorância assumida. Pensar é uma espécie de gaguejar, um tropeçar mental. Quem pensa sente a cabeça aos solavancos, desejando, por isso, atingir um resultado para poder finalmente não pensar mais nisso. Pensar é  pensar numa resposta para depois sentir o luxo de não voltar a fazer a pergunta. Mas como as respostas nem sempre existem como num manual de instruções de um electrodoméstico, os solavancos, os tremores, os espasmos, nunca chegam a parar.
O ideal seria pensar como quem soletra um  poema decorado ou quem reza  uma oração decorada, mas isso não é possível. Não se pode pode decorar e pensar ao mesmo tempo. Mas também não é preciso passar do tudo ao nada. Deveríamos pensar quando é preciso pensar (como quem consulta o manual de instruções de um electrodoméstico) mas decorar quando se trata de decorar.
Muita coisa há na vida que não é preciso saber porquê. Basta decorá-las. No coração, claro.