30 janeiro, 2012

ARS AMATORIA

                                                                     Edward Weston

Diz Aristóteles que ao médico ou ao militar não importa conhecer o bem em si para conhecerem e alcançarem o bem nas respectivas profissões. No caso concreto do médico nem sequer interessa saber o que é a saúde em geral mas apenas a saúde deste ou daquele ser humano numa determinada circunstância. Eis o mundo do particular e do concreto, tão distante do mundo da abstracção e das formas vazias. Claro que existe a saúde em geral, enquanto conceito. Sabemos o que é saúde e o que é a doença. Mas quando se trata de curar um aneurisma, uma pedra na vesícula ou uma dor de dentes, pensar na saúde em geral é absolutamente irrelevante.
Ora, passa-se o mesmo com a ideia de amor. As pessoas amam, tendo muitas vezes como base uma ideia prévia de amor. As pessoas amam a ideia de amor e, quando amam alguém em particular, amam-na em função dessa ideia de amor. Pensando com Aristóteles, isto parece um erro. O amor não deve ser encarado como uma ideia, um horizonte formal mas uma tarefa completamente inscrita no particular. O médico e o militar perseguem a ideia de bem, mas ser um bom médico não é o mesmo do que ser um bom militar. A ideia de bem é comum a ambos mas cada um deles deve ser bom à sua maneira: diferentes metas,  diferentes estratégias, diferentes linguagens. Salvar um ser humano à beira da morte, como faz o médico, não é o mesmo do que pensar na melhor maneira de matar seres humanos à beira da vida, como faz um militar. No entanto, o médico será tanto melhor quanto melhor souber salvar seres humanos, o militar será tanto melhor quanto melhor souber matar seres humanos.
Do mesmo modo, cada par amoroso deve encontrar o seu próprio bem, condição necessária para um amor saudável. O que acontece a quem ama, movido pela ideia de amor, é ficar muitas vezes sem saber como amar, tal como um médico ou um militar ficariam sem saber como agir se apenas movidos pela ideia geral de competência e eficácia. E médicos confundidos com militares ou militares confundidos com médicos não seria coisa bonita de se ver.